Um soco na cara de cada um de nós

A primeira página do Estado de ontem trouxe uma fotografia bastante significativa, na qual o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, e o petista André Vargas (PR), vice-presidente da Câmara dos Deputados, aparecem sentados lado a lado, na sessão de reabertura do Congresso Nacional.

Aloísio de Toledo César*, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2014 | 02h08

Naquele momento, quem teve motivos para tapar o nariz foi o ministro Joaquim Barbosa, que engoliu em seco e manteve a postura ante o gesto grosseiro, ofensivo, do petista André Vargas, próprio de quem tem a alma pequena. Realmente, sem o menor respeito pela figura que neste momento talvez seja a mais respeitada do País, Vargas propositadamente levantou o punho para o alto, assim como José Dirceu e José Genoino fizeram no momento em que eram levados para detrás das grades.

Foi tudo o que a sua inteligência permitiu no propósito obsceno de agredir o julgador do mensalão, sem que o autor dessa grosseria percebesse que o seu gesto representava muito mais um tapa na cara do País, e de cada um de nós, e não no ministro, que manteve a frieza e não lhe deu a resposta que muitos de nós gostaríamos de dar naquele momento.

O que quer dizer o gesto de levantar os punhos para o alto, e ameaçar, como fizeram os petistas presos e também muitos outros, nas reuniões do partido? Com certeza, não é para exibir minguados músculos, mas, sim, para demonstrar publicamente que sempre foram e continuam sendo a favor da corrupção e do uso de dinheiro público para ser utilizado em seu projeto político de perpetuação no poder, bem como para enriquecer a eles próprios.

Essa expressão "enriquecer a eles próprios" é bastante apropriada, especialmente em relação ao chefe do bando, José Dirceu, que saltou da condição de simples funcionário da Assembleia Legislativa paulista para a de morador de condomínio luxuoso em Vinhedo, além de usufruir avião sempre disponível e finíssimo escritório na Avenida República do Líbano, em São Paulo, onde fazia o trabalho de "assessoria".

Quando se fala em "bando" não se trata de exagero, mas tão somente daquilo que foi apurado, provado e julgado pelo Supremo Tribunal Federal, no mais significativo processo de a história de nossa mais alta Corte. Os principais integrantes da quadrilha foram condenados e estão na cadeia, algo que jamais havia acontecido no País quando se tratava de pessoas poderosas e com recursos para pagar os mais caros advogados.

Contra a prova dos autos de nada adiantaram os esforços dos advogados que atuaram no processo do mensalão. Nenhum deles teve êxito em sua defesa, não por falta de competência ou de empenho, mas porque, lamentavelmente para eles, as provas se mostraram robustas e convincentes. Apenas o advogado do petista João Paulo Cunha conseguiu retardar a expedição do auto de prisão de seu cliente, mas por pura sorte, uma vez que, na correria para entrar em férias e viajar para o exterior, o ministro Joaquim Barbosa deixou de assinar o mandado. E os substitutos Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski escorregaram dessa atribuição, quando o País esperava que fizessem o contrário e eles detinham poder para tanto - justamente na condição de substitutos do presidente da Corte Suprema.

Diante dos esforços do Partido dos Trabalhadores para atacar o ministro Joaquim Barbosa e procurar convencer os brasileiros de que se tratou de um julgamento político, e não ocorreu crime algum, é importante lembrar o projeto de perpetuação no poder que se percebeu na conduta dos petistas desde que um deles se sentou na cadeira de presidente da República, com a caneta na mão.

Em verdade, os petistas gostaram - e gostaram muito - de chegar ao poder, e por isso mesmo resolveram pôr em execução um plano de feição ora populista, ora socialista, para ali se manterem pelo resto de sua vida.

Para tanto tinham necessidade de obter a docilidade dos componentes do Congresso Nacional, sem o que não lograriam aprovar as leis que lhes interessavam. Mas como fazer isso sem dinheiro? Curioso, quando dizem que não houve assalto aos cofres públicos, mas tão somente um programa de "auxílio aos partidos", eles estão certos em parte.

Só que o programa com dinheiro público, que teria em vista fortalecer os partidos políticos, e dessa forma contribuir para uma democracia melhor, serviu antes de tudo para encher os bolsos de cada parlamentar que se aliava aos petistas e dos próprios petistas envolvidos na conduta criminosa.

Quando José Dirceu, José Genoino, André Vargas e tantos outros levantam os punhos para o alto, sugerindo coragem e determinação, na verdade pretendem demonstrar que a luta deles continua. Mas que luta é essa? Uma luta para acabar com a corrupção no País e para que sempre prevaleçam o dinheiro e a justiça?

Não, o que eles sugerem com esse gesto é que, se puderem, vão continuar a fazer aquilo em que se tornaram especialistas. Em verdade, eles parecem haver gostado de avançar no dinheiro público e distribuí-lo a seu gosto entre os aliados e eles próprios.

Portanto, com o mesmo gesto de punho cerrado pretendem demonstrar que a luta pelo socialismo continua e assim conseguirão, talvez, enganar algumas pessoas. Mas nunca enganarão quem lê jornais e está informado de uma realidade incontestável: a rigor, só restam no mundo dois países verdadeiramente comunistas - um é a Coreia do Norte, aquele horror de ditadura, e o outro é Cuba, infelizmente, encravada social e economicamente pela teimosia do mais longevo ditador dos nossos tempos, Fidel Castro.

O namoro da presidente Dilma Rousseff, no momento, é com a ilha cubana. Seria muito bom que ela voltasse os olhos para o oriente e convidasses os comunistas de seu partido para uma vista à Coreia do Norte, e não somente a Cuba, onde faz pesados investimentos.

*Aloísio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: aloisio.parana@gmail.com

 

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