Um suspiro de alívio

A intervenção militar russa na Crimeia, no último fim de semana, parece ter ido além do que o novo governo ucraniano e seus aliados ocidentais esperavam do líder russo Vladimir Putin - o grande perdedor do movimento que culminou com a queda de seu aliado de Kiev, o presidente Viktor Yanukovich. Temia-se que a tomada dos pontos estratégicos da península por cerca de 10 mil homens, que se fizeram passar por grupos armados da majoritária etnia russa local, fosse a primeira de outras operações do gênero no sul e no leste da Ucrânia, cujas populações, em graus variados, têm as mesmas características.

O Estado de S.Paulo

06 Março 2014 | 02h05

A Ucrânia pôs o Exército em alerta máximo e os Estados Unidos suspenderam a cooperação militar com a Rússia e ameaçaram boicotar a próxima reunião do G-8, marcada para junho em Sochi. Em Kiev, onde depositou um adjutório de US$ 1 bilhão nos esvaziados cofres nacionais, o secretário de Estado John Kerry acusou Moscou de buscar pretextos para "uma invasão maior". Dias depois da derrubada de Yanukovich, Putin ordenara manobras, já encerradas, envolvendo 150 mil soldados às portas da Ucrânia. Logo em seguida, o Senado cumpriu a formalidade de autorizá-lo a recorrer à força contra o vizinho.

O que enfureceu os russos, sem distinção, foi o primeiro ato do Parlamento ucraniano após a designação do seu titular Oleksandr Turchinov como presidente interino: a eliminação do russo como segundo idioma oficial do país. Para Putin - há 14 anos se esmerando em ser visto como o restaurador da grandeza perdida pela Mãe-Rússia com "a maior catástrofe geopolítica do século 20", o fim da União Soviética -, a decisão do Legislativo ucraniano terminava de demonstrar que a onda nacionalista que embasou o levante contra Yanukovich, por ele ter se recusado a aproximar o país da União Europeia, estava embebida em ódio à Rússia. Em parte é verdade.

De todo modo, a intervenção na Crimeia gerou outras consequências além da aparente disposição de Washington de "isolar" Moscou, como disse Obama, mediante sanções diplomáticas e econômicas. Na segunda-feira, a Bolsa moscovita sofreu um tombo de 11%, encolhendo em US$ 60 bilhões o valor de mercado das empresas do país. O rublo caiu 3%, obrigando o banco central russo a elevar a taxa de juros a 7%, dos até então 5,5%, e a injetar 20 bilhões de rublos na economia. Essa eloquente resposta do mercado teria levado Putin a convocar já para o dia seguinte uma entrevista à imprensa - um evento que, habitualmente, o Kremlin reveste de pompa e circunstância.

Sentado a poucos passos de um grupo de repórteres, alguns dos quais em mangas de camisa, um digressivo, não raro contraditório, Putin falou por 66 minutos para justificar o que negou ter feito: assumir o controle da Crimeia. "A única coisa que fizemos, diante de constantes ameaças e do risco da aparição de nacionalistas armados, foi reforçar a defesa de nossas instalações militares", disse, numa alusão aos dispositivos de apoio à frota russa fundeada em Sebastopol, no Mar Negro. Ele descreveu a reviravolta política na Ucrânia como um "golpe inconstitucional" orquestrado pelo Ocidente, consumando "uma orgia de violência fascista, reacionária e antissemita".

Putin não descartou novas ações em território ucraniano, mas só "em último recurso" - e repetiu a expressão. Quase deu para ouvir o suspiro de alívio nos mercados, que voltaram a operar em alta, e nos países europeus, que dependem do gás russo para suprir 1/3 de sua demanda de energia. O comércio com a Rússia, movimentando cerca de US$ 460 bilhões por ano, completa a explicação para a relutância europeia em apoiar as sanções desejadas pelos EUA. A questão é o que Washington pode fazer - se é que pode - para Putin desocupar a Crimeia. O seu primeiro-ministro, Sergei Aksionov, falou em convocar um plebiscito sobre o destino da república. Somada à indireta de Putin de que aceitaria o governo ucraniano a resultar das eleições previstas para maio, a consulta popular pode ser a saída da crise.

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