Uma alternativa à mercantilização do livro-II

Em artigo anterior (19/6) propusemos a proliferação de editoras sem fins lucrativos como uma das medidas capazes de atenuar as distorções da mercantilização do livro imposta pelo predomínio da razão de mercado na produção editorial brasileira, especialmente no que diz respeito à crescente redução de espaço para obras de ficção de autores nacionais. Na 22.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e encerrada no último dia 19, tive a honrosa e a gratificante responsabilidade de fazer a curadoria de um novo espaço da programação alternativa, o Livros & Cia., dedicado à discussão de temas de interesse dos profissionais de todos os elos da cadeia de produção do livro. Na mesa que marcou o encerramento da programação, com o tema "A literatura brasileira pede passagem", abriu-se um debate amplo e fecundo também sobre a questão do cumprimento da missão civilizadora do livro, em contraponto à enorme variedade de assuntos até então tratados nesse espaço, todos eles relacionados "apenas" à gestão do negócio do livro.

A.P . Quartim de Moraes

23 Agosto 2012 | 03h05

Depois de ouvir de tudo, inclusive a assustadora afirmação de que "a vida útil do livro está cada vez mais curta", proferida por representante de uma das maiores editoras brasileiras, ficou evidente que a solução, de resto, óbvia, para os problemas que o livro enfrenta no cumprimento de sua missão civilizadora passa realmente por pôr o assunto em pauta nos foros adequados. A ameaça ao advento de novas obras clássicas e permanentes, implícita no fato de que a vida útil do livro está "cada vez mais curta", é rigorosamente verdadeira quando considerada do ponto de vista míope e ganancioso do tipo de gestão predominante no negócio editorial. Mas como este não é, obviamente, o único ângulo pelo qual a questão pode ser levada em conta, vale a pena perseverar na discussão, pelo menos para quem ainda acredita que a literatura brasileira tem um papel importante a cumprir na formação cultural de nossa gente.

A grande dificuldade é que parece existir, em todos os círculos que se poderia imaginar interessados nessa discussão, um certo pudor, se não desinteresse, em pô-la em pauta. De qualquer modo, como sugestão à reflexão, proponho a hipótese de que o atual status de nosso mercado editorial - de modo particular no segmento trade, aquele que produz títulos para comercialização principalmente em livrarias - é sustentado por quatro pilares.

O primeiro é exatamente a ação do big business, representado pela conjugação de interesses das grandes casas publicadoras com os das grandes cadeias do varejo. Aí não há muito a fazer. É assim que a banda toca mundo afora. Livro também é negócio e os negociantes têm o direito de agir como se livro e lata de salsicha fossem, como produto, a mesmíssima coisa. Alguns deles, talvez por desencargo de consciência, ainda abrem seus catálogos e estantes a escritores brasileiros de ficção, mas para edições limitadas a tiragens mínimas e sem nenhum investimento importante em divulgação. Quando se trata de ficção, o grande negócio editorial reserva-se o direito de investir pesado quase que exclusivamente em títulos com histórico de sucesso lá fora, que aqui chegam precedidos pelos ecos desse sucesso.

É a lógica do mercado, em que o consumo de massa - coisa que ainda estamos longe de ter por aqui - implica necessariamente conteúdos mais acessíveis ao leitor comum, menos exigente ou preparado intelectualmente. A diferença é que culturas mais sólidas e enraizadas, como as do Primeiro Mundo, são naturalmente mais imunes às apelações editoriais que, entre nós, acabam concorrendo predatoriamente com a boa e necessária literatura brasileira.

O segundo pilar é a mídia, que, quando se trata de livro, se limita - competentemente, justiça seja feita - às questões estritamente literárias, de preferência as mais sofisticadas, passando ao largo da discussão, quando não ignorando olimpicamente o fato de enorme relevância cultural de que o nível dos conteúdos publicados está cada vez mais sofrível e, principalmente, de que a dispendiosa loteria do best-seller está sitiando a literatura brasileira no reduto das pequenas e médias editoras, ou das casas publicadoras públicas ou acadêmicas, que atuam quase que marginalmente no mercado.

O terceiro pilar é a falta de políticas públicas destinadas a corrigir as distorções do mercado editorial, como a concentração, que favorece os interesses econômico-financeiros em detrimento dos culturais. Se é o pequeno e médio negócio editorial que ainda se preocupa com os conteúdos relevantes, embora frequentemente problemáticos do ponto de vista comercial, por que não se desenvolve uma agressiva política de apoio a esse pequeno e médio negócio? Entidades representativas desses segmentos dispõem de sugestões para políticas públicas inovadoras e reguladoras das distorções do mercado, como programas de financiamento e incentivos fiscais mais generosos e eficientes do que aqueles que já são compartilhados com as grandes empresas do setor. O brasileiro já lê pouco. Não faz sentido permitir que leia cada vez pior.

Finalmente, uma questão delicada, com enorme potencial de ferir melindres: o quarto pilar a sustentar o atual status do mercado editorial brasileiro é o comportamento dos próprios escritores brasileiros. Especialmente daqueles que desfrutam de reconhecimento e prestígio e que, exatamente por isso, teriam condições de se fazer ouvir. Mas a maioria prefere se instalar na zona de conforto que conquistou e se conformar até mesmo com o fato de que a venda de suas obras está quase sempre muito aquém de seu potencial mínimo, pelo simples fato de que as editoras se recusam a investir nelas em tiragem e divulgação. Lista de mais vendidos, portanto, nem pensar!

* JORNALISTA E EDITOR

E-MAIL: APQDM@UOL.COM.BR  

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