Uma âncora para os preços

Preços bem comportados, se as previsões estiverem certas, serão uma bênção para o novo presidente

O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 03h00

Se depender das expectativas, a inflação deste ano ficará na meta de 4,5%, ou muito perto, e continuará moderada em 2019. Consumidores e economistas do mercado financeiro coincidem nessa avaliação, apesar do repique de alguns indicadores desde o mês passado. Preços bem comportados, se as previsões estiverem certas, serão uma bênção para o novo presidente, especialmente em seu primeiro ano de mandato. Nessa fase, ele terá de se concentrar, se tiver juízo, num programa de ajustes e reformas e em medidas para reforçar o crescimento econômico e a criação de empregos. Se for menos ajuizado que o necessário, ele mesmo derrubará as projeções otimistas, agravará a situação das finanças públicas e desencadeará pressões inflacionárias.

Expectativas bem ancoradas – segundo o jargão dos economistas – contribuem para a estabilidade dos preços. Quanto a isso há boas novidades. A inflação ficará em 5,7% nos próximos 12 meses, segundo a mediana das previsões dos consumidores coletadas em outubro pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Esse número é pouco maior que o registrado em setembro (5%) e 0,7 ponto porcentual inferior ao da pesquisa de outubro do ano passado.

“O resultado mostra, ao longo dos últimos meses, uma expectativa de inflação dos consumidores bem ancorada”, comentou em nota o economista Pedro Costa Ferreira, da FGV. É uma excelente notícia, acrescentou, porque o período eleitoral está acabando e nenhum choque relevante ocorreu nos últimos tempos.

Entre setembro e outubro os consumidores das quatro faixas de renda consideradas na pesquisa mantiveram as previsões estáveis ou muito perto da estabilidade. Na faixa até R$ 2.100 mensais a inflação esperada para os 12 meses à frente passou de 6,0% pra 6,4%. O grupo com renda até R$ 9.600 baixou a expectativa de 5,5% para 5,2%. Aqueles com ganhos acima de R$ 9.000 repetiram a projeção de 5%.

A disputa eleitoral muito áspera e polarizada parece ter produzido pouco ou nenhum efeito na expectativa em relação à alta de preços. As projeções diminuíram entre novembro do ano passado e abril e a partir daí voltaram a subir, mas sem disparada. Além disso, a mediana das previsões tem permanecido nos limites de tolerância fixados pela política oficial. A meta para 2019 é uma inflação de 4,25%, com tolerância de 1,5 ponto acima ou abaixo do centro.

Com estimativas pouco mais baixas que as dos consumidores, economistas do mercado financeiro também sustentam projeções de inflação moderada para 2018 e para o próximo ano. Essas expectativas foram reafirmadas logo depois da divulgação do IPCA-15, a prévia do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, na terça-feira passada.

O IPCA-15, medido nas quatro semanas até o meio do mês, subiu 0,58% em outubro, num salto considerável, depois da alta de apenas 0,09% anotada em setembro. O aumento foi puxado principalmente pelo custo da alimentação. Esse item passou de uma taxa negativa de 0,41% em setembro para uma positiva de 0,44% no período seguinte. Segundo analistas, esse movimento resultou basicamente da variação do câmbio e da recuperação dos preços internacionais dos produtos básicos.

Assimilado esse ajuste, os economistas continuam projetando para 2018 e 2019 inflação muito perto da meta. Além da acomodação do câmbio, levam-se em conta a expectativa de mais chuvas (com efeito nas tarifas de eletricidade) e a previsão de mais um ano com grande oferta de alimentos.

Analistas chamam a atenção para um detalhe particularmente importante: o impacto do dólar mais caro ficou limitado, até agora, aos preços dos chamados bens comercializáveis, sem “efeitos de segunda ordem”. Enfim, como indica o Banco Central (BC), expectativas ancoradas também moderam o impacto do câmbio. Com âncora tão forte, parece razoável prever a manutenção dos juros básicos em 6,50% pelo BC na próxima semana e talvez na decisão seguinte, em dezembro, a última antes da posse do novo presidente. 

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