Uma aposta duvidosa

Que a prioridade na capital paulista - a exemplo do que se passa nas grandes cidades dos países desenvolvidos - deve ser o transporte coletivo, não se discute. Mas há maneiras e maneiras de fazer isso. Na ânsia de conseguir resultados rápidos, talvez de olho no calendário eleitoral, o prefeito Fernando Haddad vem apostando numa medida - a implantação de faixas exclusivas para ônibus - que está longe de poder dar o retorno desejado. Pior do que isso, ela corre o risco de complicar ainda mais o trânsito.

O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2013 | 02h15

Os planos do atual governo nesse setor incluem a construção de 150 km de corredores e de 220 km de faixas exclusivas. Os corredores são caros e de construção mais demorada, porque, entre outras obras, exigem pista especial, mais resistente para suportar o transporte pesado, instalações para embarque e desembarque e espaço para ultrapassagem dos ônibus. E têm a vantagem de, implantados à direita, não atrapalharem a conversão dos outros veículos nos cruzamentos. Por tudo isso, sua conclusão está prevista só para o final dessa administração.

Para implantar as faixas, não é preciso muito mais do que sinalização pintada no asfalto. Mas essa simplicidade e esse baixo custo não as transformam numa panaceia, capaz de produzir resultados extraordinários num passe de mágica. Se fosse assim, sua adoção há muito teria sido universalizada. Por isso, ao apostar alto nas faixas, a Prefeitura está criando falsas expectativas que têm tudo para, muito em breve, redundar em frustrações.

As faixas implantadas nas Avenidas Paulista e 23 de Maio e nas Marginais do Tietê e do Pinheiros são exemplos de alguns dos principais inconvenientes dessa aposta duvidosa. Na Paulista, tomar um táxi se tornou quase impossível, porque praticamente não existe mais espaço onde eles possam pegar e deixar passageiros. Para os que usam carro, o risco é muito grande de serem multados ao fazer a conversão nos cruzamentos, quando é obrigatório atravessar a faixa. Isso vale para todas as outras faixas.

Nas Marginais e em especial na 23 de Maio, as faixas estão subutilizadas. Nesta última, fotos publicadas nos jornais mostraram a faixa quase vazia, com pouquíssimos ônibus. Ou seja, restringiu-se ainda o espaço para os demais veículos, que já era insuficiente, para um resultado pífio. Pelo menos até agora. De que adianta tornar possível aos ônibus desenvolver uma velocidade maior nas faixas, se pouco aproveitam essa vantagem? Para aproveitá-la é preciso reordenar as linhas de ônibus, para adaptá-las às novas realidades da cidade e às necessidades dos usuários. E esse reordenamento deveria, portanto, preceder a implantação tanto das faixas como dos corredores.

Em entrevista à TV Globo, dias atrás, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, reconheceu que um dos grandes desafios da sua administração é "reorganizar o sistema de transporte", porque "tem lugares que faltam ônibus e lugares que têm ônibus sobrando". O desafio é realmente grande, porque reordenar as linhas - algo há muito prometido e esperado - não interessa às poderosas empresas de ônibus, que ganham muito bem com as coisas como elas estão hoje. E por isso elas têm conseguido impedir essa medida, embora ela seja fundamental para melhorar o serviço.

Enquanto essa melhora - que, além da maior velocidade, possibilitada por corredores e faixas, inclui também respeito aos horários e conforto - não ocorrer, os paulistanos que usam carro para seus deslocamentos não vão migrar para o serviço de ônibus. Para isso não basta só a torcida e as declarações otimistas de Tatto.

Outro problema das faixas ao qual os paulistanos precisam estar atentos é a fragilidade do seu piso, despreparado para o uso contínuo por veículos pesados como os ônibus. Se mesmo o piso reforçado dos corredores precisa ser periodicamente refeito, imagine-se em que estado estará em breve o das faixas.

Em resumo, tal como se apresenta hoje, a aposta do atual governo nas faixas de ônibus não deve levar a grande coisa.

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