Uma campanha paradoxal

O debate na Rede Globo entre os sete candidatos ao Planalto habilitados a participar desse tipo de evento entrou pela madrugada de ontem, mas dificilmente se encontrará entre os eleitores que o acompanharam até o fim quem há de ter ido se recolher mais esclarecido sobre o que fazer na urna eletrônica de amanhã. Para usar um lugar-comum que no caso se impõe, competitivos ou nanicos, os participantes geraram muito calor e pouca luz. Os primeiros, em torno dos quais gira a sucessão presidencial, gastaram as suas energias em um tiroteio sobre a corrupção.

O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2014 | 02h05

A escolha do assunto pela emissora para ocupar o bloco de abertura do confronto e a intensidade da troca de balaços entre os rivais pelo menos prestaram homenagem à importância que a sociedade, infelizmente coberta de razão, confere à sangria dos recursos públicos para o desfrute de forças privadas. O anverso da medalha, naturalmente, é a melancólica conclusão de que, perto de completar 30 anos de ininterrupta vida democrática e com pencas de problemas, velhos e novos, a resolver, o Brasil que os brasileiros enxergam continua a ser o do assalto dos políticos e agregados ao patrimônio comum.

O combate só teve perdedores - por culpa (ou, quem sabe, culpas) de todos. Na maioria das vezes, as suas palavras passavam a impressão de que eles estavam entregues ao deplorável jogo do "Sou, mas quem não é?". Quando, por exemplo, o tucano Aécio Neves assediou a adversária do PSB, Marina Silva - com quem disputa, cabeça a cabeça, a passagem para o segundo turno -, sobre a sua permanência no PT na era do mensalão, a ex-senadora não teve nada melhor a dizer do que acusar o inquiridor de também ter estado "dentro de um partido que praticou o mensalão" (na campanha pelo governo de Minas Gerais, em 1998). Sobre o que ela pretende fazer, se eleita, contra esse tipo de delito, nenhum pio.

E por aí foi. Quando Marina voltou suas baterias contra a presidente Dilma Rousseff - as duas chegaram a discutir fora do ar -, lembrando a sua alegação literalmente incrível de que jamais teve conhecimento da ladroagem praticada na Petrobrás por Paulo Roberto Costa, nos oito anos em que dirigiu a área de abastecimento da estatal, a petista correu a lembrar do que seria uma situação equivalente para neutralizar a cobrança. "O seu diretor, nomeado por você (então ministra do Meio Ambiente), de fiscalização do Ibama, foi afastado pelo meu governo por desvio de recursos", começou. "E nem por isso eu saio por aí dizendo que você sabia da corrupção." A monumental diferença de escala entre os desvios ficou por isso mesmo.

A lavação de roupa suja no debate foi um retrato fiel dessa campanha em que as questões programáticas - aquelas de que, de uma forma ou de outra, a população dependerá nos próximos quatro anos - serviram, quando muito, não para criticar ideias, mas para desqualificar a concorrência. Não é que a regra das sucessões presidenciais brasileiras seja a de um vibrante entrechoque de projetos sérios, mas a deste ano leva a palma em matéria da oferta abusiva de águas contaminadas para saciar o presumível interesse do eleitor pelo que o aguarda. Nos últimos 50 dias, o País viveu uma situação paradoxal - a do desencontro da mais surpreendente disputa pelo governo desde o restabelecimento das eleições diretas, em 1989, com a menos substancial das cinco que a precederam.

Resta esperar que, se houver segundo turno, o próprio afunilamento do embate obrigue os sobreviventes da rodada inicial a apresentar suas efetivas credenciais ao público votante. Mas, como salta à vista de todos, nada é certo. Nem se o ciclo eleitoral terminará amanhã ou no último domingo de outubro nem quem participará da queda de braço com Dilma, se só então a peleja chegar ao desfecho. As pesquisas divulgadas horas antes do derradeiro debate na TV registram alterações milimétricas - mas eventualmente decisivas - em relação às sondagens da antevéspera. Pela primeira vez, o Datafolha dá Aécio (com 21%) em empate técnico com Marina (24%). E, pela primeira vez, o Ibope situa Dilma no limiar da vitória no primeiro turno (a 3 pontos da necessária maioria absoluta). Há números, pois, para todas as esperanças.

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