Uma corda sobre o abismo

.A construção de uma sociedade civilizada e democrática exige melhores processos

*Fábio de Biazzi, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 03h02

Ao contrário da evolução científica e tecnológica, os avanços da sociedade – dos comportamentos humanos em sociedade – não são inexoráveis. Enquanto a trajetória da maioria dos países mostra um continuado progresso na adesão aos valores democráticos e no respeito aos seus cidadãos, a História também está repleta de retrocessos. Uma belíssima imagem da falibilidade da evolução social nos é dada pela conhecida metáfora do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “O homem é corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo. Travessia perigosa, perigoso caminhar, perigoso tremer e parar”.

O mais recente exemplo de retrocesso vem de um país usualmente lembrado por seus avanços: os EUA têm hoje em sua Presidência um indivíduo que não se importa em mentir ou caluniar, não valoriza compromissos assumidos, é desrespeitoso com as mulheres e vários segmentos da sociedade e reincidente no ataque à imprensa. Caso não venha a ser destituído, acredita-se que os checks and balances das instituições dos EUA sejam suficientes para evitar grandes desastres sob a administração Trump. Mesmo assim, enquanto ele permanecer como presidente os americanos estarão retrocedendo em relação aos padrões de civilidade e democracia anteriormente estabelecidos naquela nação.

Voltando nossa atenção para o Brasil, os últimos meses têm nos mostrado uma escalada entre as forças impulsionadas pela manifestação pacífica de milhões de brasileiros e também pelo avanço da Lava Jato e, do outro lado, as forças ligadas àqueles cujo comportamento antidemocrático, antiético ou criminoso tem sido repudiado por essa mesma população e exposto pela operação. Assim, o avanço das investigações, prisões e condenações tem sido acompanhado pelo recrudescimento de discursos e iniciativas em sentido contrário. O volume e a qualidade das evidências e provas conseguidas pela Lava Jato parecem avassaladores – como exposto em diversas matérias, por exemplo publicadas no Estadão, na revista Época e no site O Antagonista – e fazem parecer impossíveis manobras capazes de reverter o que foi posto em movimento. Entretanto, até o momento a escalada continua e reações vigorosas podem ser vistas partindo dos três Poderes da República.

Podemos imaginar que ao fim desse embate uma de duas situações prevaleça: ou as instituições brasileiras saem fortalecidas e os brasileiros, mais altivos e orgulhosos dos valores vigentes no País, ou perdemos de vez nossa autoestima e mergulhamos na descrença e na vergonha de uma irreversível deterioração dos comportamentos de civilidade, cientes de vivermos numa autêntica República de bananas. O Brasil não sairá o mesmo ao fim dessa escalada. Sairá melhor ou pior, mas nunca mais o mesmo.

Além disso, mesmo a prevalecer o resultado mais desejado e hoje o mais provável, de sucesso das forças e dos valores congregados em torno da Lava Jato, não cessam os desafios. A construção de uma sociedade mais civilizada e democrática exige melhores e mais maduros processos democráticos. Os processos necessários a uma democracia estável e ao desenvolvimento econômico foram listados de maneira brilhante neste mesmo espaço, poucos dias atrás, pelo professor da UFRGS Francisco Ferraz, que os denominou “camadas”: 1) procedimentos legítimos de escolha das autoridades políticas, 2) eleições “imparciais, isentas e honestas”, 3) “segurança efetiva dos direitos e garantias individuais”, 4) “eficiência governamental”, 5) “igualdade e mútuo controle entre Poderes” e 6) “consenso sobre valores, regras e procedimentos essenciais da democracia”. Ferraz destaca termos recuado em quatro desses seis processos – exceto no primeiro e no terceiro – e que o que se conseguiu com isso foi levar o País à condição de “democracia instável”. Dessa forma, a recuperação e a preservação desses processos seriam essenciais à construção de uma democracia estável no País.

O arcabouço apresentado pelo professor Ferraz é claro, preciso e completo em relação aos processos necessários para uma democracia estável e duradoura. Talvez um único, mas fundamental, complemento – não relacionado a processos, e sim a comportamentos – seja conveniente apontar como precondição capaz de dar sustentação a esses processos e também a nossos valores e princípios. Voltando ao exemplo americano, embora seja uma democracia robusta na manutenção dos seis pontos citados, ela é considerada por muitos analistas, acadêmicos e jornalistas dos EUA e de outros países sob risco de deterioração, por se defrontar com um presidente com atitudes de caráter e julgamentos de valor altamente questionáveis.

Assim, qual seria essa condição? Os editoriais do Estadão analisaram em profundidade e recorrentemente – quatro vezes em menos de duas semanas – qual é essa precondição: a qualidade da liderança política. E se pretendemos dar foco às capacidades mais essenciais que devem ser apresentadas por e requeridas de nossos líderes, deveríamos privilegiar e cobrar primeiramente um comportamento ético. Segundo James Clawson, professor de Liderança e Comportamento Organizacional da University of Virginia Darden School of Business, são quatro os comportamentos percebidos nas atitudes e ações de um líder ético: dizer a verdade, manter promessas, ser justo e respeitar os indivíduos. Será que alguém se apresenta?

Em resumo, se não forem atendidos os anseios da população ordeira que se tem manifestado contra a corrupção, se a Lava Jato não atingir seus objetivos, se não se mostrarem ou surgirem líderes com comportamentos éticos e, em particular, se não soubermos reconhecer e escolher quem fala a verdade, quem não faz falsas promessas e quem é justo e respeitoso, estaremos condenados à descrença, à vergonha, ao cinismo e à anomia. Enfim, à queda no abismo...

*Engenheiro de produção, doutor em engenharia pela USP, diretor executivo e consultor de gestão, é professor de liderança e comportamento organizacional do MBA executivo do Insper

 

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