Uma enxurrada de aumentos

Com o poder de compra já erodido pela inflação do ano passado, o consumidor teve de enfrentar no começo de 2015 uma enxurrada de aumentos de preços administrados. Represados por longo tempo, alguns por dois anos, esses preços começaram a ser liberados já em 2014, mas a abertura da comporta ainda se prolongará por algum tempo. O efeito da liberação, especialmente sensível no mês passado, está refletido nos primeiros indicadores de preços. O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, subiu 1,73% no mês passado e 7,66% em 12 meses. O IPC-S cobre um período equivalente a quatro semanas e é atualizado semanalmente. Metade da variação, 0,85 ponto porcentual, foi produzida pelos aumentos de tarifas de ônibus, contas de eletricidade, cigarros e custos de escolas formais. Em 12 meses, a inflação dos administrados chegou a 17,49%, como observou o coordenador das pesquisas de preços da FGV, o economista Paulo Picchetti.

O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2015 | 02h05

A presidente Dilma Rousseff recorreu amplamente ao represamento de preços administrados na metade final de seu primeiro mandato. Foi uma forma de disfarçar as pressões inflacionárias - truque semelhante ao usado na maquiagem das contas públicas, a chamada contabilidade criativa. A contenção política das tarifas de energia elétrica foi um dos truques mais notórios. Mas o represamento foi bem mais extenso. Já era usado - e continuou em vigor - para os preços dos combustíveis, causando sérios danos ao fluxo de caixa da Petrobrás. Além disso, foi estendido, por meio de pressão política, às tarifas de transporte público, administradas por prefeitos e governadores. Um aumento dessas tarifas deveria ter ocorrido em São Paulo em 2013, mas foi adiado depois de protestos e da intervenção da presidente da República. Só recentemente as passagens foram reajustadas.

Em janeiro, o custo da alimentação, o mais importante na formação do IPC-S, variou menos que outros componentes. Entre a primeira e a última quadrissemana do mês, a alta de preços dos alimentos passou de 1,41% para 1,64%. A da habitação, onde se inclui o custo da eletricidade, foi de 1,21% para 2,01%. A de transportes, de 0,8% para 2,39%. A de educação, leitura e recreação, de 0,79% para 4,15%, refletindo a forte correção de contratos sujeitos à indexação.

A inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), será divulgada na sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O IPCA subiu 0,78% em dezembro e 6,41% no ano passado. No mercado financeiro, a mediana das expectativas para o resultado de janeiro ficou em 0,97% na sexta-feira passada, segundo a pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central (BC). A pesquisa foi divulgada ontem.

A projeção do mercado é pouco pior que o aumento efetivo registrado nas duas primeiras semanas do mês e mostrado pelo IPCA-15, uma prévia do indicador oficial. A alta nas quatro semanas encerradas em 15 de janeiro ficou em 0,89%. O maior impacto foi provocado pelo aumento de 1,45% dos preços de alimentação e bebidas. O efeito dos preços administrados será provavelmente mais sensível na formação do número final do mês, como no caso do IPC-S.

Na pesquisa Focus, a mediana das projeções para a alta dos preços administrados ficou em 9% na última semana. Quatro semanas antes, estava em 7,85%. Também os dirigentes do BC projetam uma forte elevação desses preços nos próximos meses, como foi indicado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável principal pelo combate à inflação.

Segundo a pesquisa Focus, o IPCA deve subir 7,01% neste ano, bem acima do limite de tolerância, de 6,5%. Essa expectativa poderá justificar novos aumentos de juros pelo Copom. Além disso, a evolução dos preços dependerá em parte da arrumação das contas do governo. Combinados, o aperto monetário e o ajuste fiscal poderão limitar o contágio dos aumentos de preços administrados e deixar a economia mais preparada para o retorno ao crescimento.

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