Uma guinada conservadora

As análises da atual constituição do Congresso Nacional, eleito em outubro do ano passado, indicam que o perfil político dos deputados e senadores é o mais conservador da história recente da República. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atual presidente da Câmara dos Deputados, é a mais legítima expressão dessa nova realidade. Ele representa, no movimento pendular que é próprio das sociedades em que impera o pluralismo democrático, o previsível contraponto a um projeto político autoproclamado “progressista”, de viés autoritário, cujos desacertos e contradições ao longo de 12 anos de poder são hoje claramente repudiados pela grande maioria dos brasileiros. Assim, Eduardo Cunha e a inflexão conservadora que lidera são um irônico legado do lulopetismo a um País que tenta superar obstáculos à consolidação de suas instituições democráticas e a um processo sustentável e duradouro de progresso político, econômico e social.

O Estado de S. Paulo

18 Junho 2015 | 03h00

Em entrevista ao Estado publicada no domingo passado, o peemedebista Eduardo Cunha, sem papas na língua e sem a preocupação de salvar as aparências da naufragante aliança de seu partido com o governo petista, afirmou que “o PMDB dificilmente repetirá a aliança com o PT. Não repetirá. Esse modelo com o PT está esgotado (...). O PMDB vai buscar o seu caminho em 2018”. E ainda ameaçou, numa clara referência às canhestras tentativas do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, de esvaziar o trabalho de articulação política de que o vice-presidente Michel Temer foi encarregado pela presidente da República: “Qualquer tentativa de sabotar o Michel (...) acabará em ruptura”.

O protagonismo político de Eduardo Cunha, na condição de presidente da Câmara dos Deputados, é o resultado da arrogância e empáfia que deixaram Dilma Rousseff inebriada logo no início de seu segundo mandato. Mal aconselhada pelos auxiliares mais próximos, entendeu que poderia impor sua vontade aos deputados e colocar no comando da Casa um correligionário fiel. Subestimou o cacife político e o poder de articulação de Cunha, que lhe impôs uma humilhante derrota – a primeira de uma longa série – na eleição da Mesa da Câmara.

O sólido apoio de que Eduardo Cunha dispõe na Câmara para desenvolver seu próprio projeto político transparece em suas atitudes, extrapola a bancada peemedebista e se estende pelo amplo espectro pluripartidário do chamado baixo clero – a maioria de parlamentares que normalmente não desempenha papel proeminente no jogo político, preocupando-se mais em cuidar dos interesses de suas próprias bases eleitorais. Além disso, o evangélico Cunha exerce forte influência junto aos colegas que professam a mesma fé. A associação dessas duas circunstâncias, que significam posições políticas geralmente conservadoras, compõe o cenário ideal para que o presidente da Câmara, atuando com pertinácia, habilidade e oportunismo, se projete como candidato a líder nacional da hoje ampla maioria de brasileiros que repudiam o populismo petista. É um trabalho facilitado pela incapacidade que a oposição institucional, representada pelo PSDB e aliados como DEM, PPS e SD, tem demonstrado para desenvolver uma atuação orgânica e contundente.

O conservadorismo não é necessariamente um mal ou significa retrocesso para as modernas sociedades democráticas. O dinamismo que impulsiona o desenvolvimento social só existe com o sólido funcionamento das organizações institucionais que podem ter distintas formas. O verdadeiro progressismo implica o necessário equilíbrio entre a necessidade de garantir fundamentos institucionais sólidos e de gradativamente adaptá-los às transformações sociais. Uma sociedade incapaz de lidar com essa dualidade está condenada a parar no tempo.

O risco inerente à atuação política de ativistas de movimentos como o evangélico – e esperemos que esse não seja o caso de Eduardo Cunha – é que eles tendem a violar a laicidade constitucional do Estado com a adoção legal de convicções religiosas que, por definição, não podem ser impostas ao conjunto da sociedade. A promiscuidade entre Estado e religião só tem produzido consequências nefastas para as sociedades que fazem essas experiências. Elas aprendem, tarde demais, que o lugar adequado para pregações religiosas são os templos.

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