Uma nova Renascença?

Seus resultados parecem atraentes, mas ela vai aumentar a concentração de renda e o desemprego

* José Goldemberg, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2018 | 05h00

Existe uma corrente de economistas que acredita que o “século de ouro” das inovações tecnológicas, que teve início com a Revolução Industrial na Inglaterra, no século 19, já se esgotou.

Essa revolução começou com a invenção das máquinas a vapor, que inicialmente modernizaram a indústria da tecelagem e eliminaram a fabricação artesanal de tecidos, e seguiu com o desenvolvimento das locomotivas e do transporte ferroviário, que cruzaram todos os continentes. Mais tarde, a descoberta do processo de produção de eletricidade permitiu a iluminação das cidades e, posteriormente, as telecomunicações mudaram radicalmente a face da Terra. No século 20 verificou-se uma enorme expansão das cidades, onde vive hoje cerca da metade da população mundial.

O império inglês baseou-se nessas tecnologias, que deram ao país uma prosperidade sem precedentes na História. A Inglaterra produzia os produtos que eram exportados para as colônias, criando empregos bem remunerados para a sua população. Só para dar um exemplo, no fim do século 19 a Inglaterra, com apenas 3% da população mundial, produzia (e exportava) aproximadamente metade do ferro e aço usado no mundo.

É por essa razão que a Revolução Industrial é considerada por muitos como uma “segunda Renascença”. A primeira Renascença, como se sabe, começou no fim da Idade Média, por volta de 1400. A invenção da imprensa, por Gutemberg, que aumentou o número de pessoas alfabetizadas, destruiu o monopólio de conhecimento e poder da Igreja Católica. Repetir os dias de glória das antigas civilizações grega e romana passou a ser a aspiração das pessoas. O “renascimento” nas letras e artes foi particularmente forte em Florença, na Itália, onde a pintura e a arquitetura floresceram sob o patrocínio da aristocracia. Com isso os próprios costumes passaram por um período de liberalização extrema.

A reação a esse “renascimento” não demorou. Em menos de um século, por volta de 1480, surgiu uma onda violenta contra esse período de liberdade com o movimento obscurantista de Savanarola, um sacerdote dominicano que defendia o retorno à velha ordem, promovendo até a destruição de obras de arte de grandes renascentistas como Dante, Boccaccio e Boticcelli, entre outros.

A reação de Savanarola à “renascença” do século 15 tem sido comparada à retórica e às políticas do presidente Donald Trump, dos EUA, que está levando seu país a abandonar causas de interesse de toda a população mundial, como o comércio internacional, o combate ao aquecimento global e outros, usando o argumento de que prejudicam parte da população americana que o elegeu.

Exemplo disso é o sólido apoio que Trump tem entre os operários que trabalham na mineração de carvão, fonte principal das emissões de gases responsáveis pelo aquecimento da Terra. O uso de carvão está em declínio no mundo todo por motivos econômicos e tecnológicos e vai ser substituído por combustíveis mais “limpos”, como gás natural e fontes de energia renováveis. Isso não interessa aos mineiros que extraem o carvão – que representam o passado –, como Savanarola não desejava a perda de poder da Igreja.

As políticas preconizadas pelo presidente Trump baseiam-se também no fato de que os salários de grande parte da classe média dos EUA, da Inglaterra e outros países altamente industrializados estagnaram a partir de 1980, o que, segundo alguns economistas, decorre da redução do ritmo da inovação tecnológica. Essa situação cria muito descontentamento nesses países e alimenta correntes políticas extremistas ou nacionalistas para proteger os que deixaram de se beneficiar com os resultados das descobertas do “século de ouro”.

Sucede que estamos agora diante de uma nova Renascença com o desenvolvimento da informática, da automação e da inteligência artificial, que já é realidade e está mudando a nossa vida diária.

Somente para dar um exemplo, transações bancárias são feitas agora por cartões, computadores e celulares, tal como o check-in nos aeroportos, compras pela internet; e o atendimento médico utiliza mais e mais exames sofisticados. Parte da produção industrial já é feita por robôs, uma vez que as atividades repetitivas podem ser programadas em computadores. E essa tendência certamente vai se acentuar.

É provável que automóveis sem motorista se tornem populares em algumas décadas, e até com a possibilidade de eliminarem acidentes, já que a maioria deles é causada por erro humano.

Muitos dos resultados desta “nova renascença” parecem atraentes, mas não há dúvida de que vão criar dois problemas novos, cuja gravidade é ainda difícil de avaliar: concentração de renda e desemprego.

A concentração de renda já está ocorrendo, por exemplo, com os novos gigantes do Vale do Silício, cuja riqueza supera a de setores tradicionais, como o automobilístico. Esse não é um problema que a tecnologia possa resolver. Nas mãos de 1% da população mundial estão cerca de 50% da riqueza do planeta. Governos podem agir para diminuir o problema por meio da taxação das grandes fortunas e da adoção de políticas distributivas.

O problema do desemprego é mais sério. Estimativas feitas por pesquisadores da Universidade de Oxford sugerem que centenas de milhões de pessoas não teriam emprego no futuro por falta de conhecimentos e da educação necessária para obtê-los, dadas as falhas do sistema educacional atual.

Será necessário, então, expandir as atividades nas áreas em que máquinas não poderão substituir o ser humano, como educação, lazer, turismo, literatura, artes e atividades correlatas, e, sobretudo, aumentar o número de “pessoas para cuidar de pessoas”.

Talvez esse venha a ser um mundo melhor que o atual.

* Professor emérito e ex-reitor da Universidade de São Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.