Uma odisseia capitalista

Roberto Teixeira da Costa conta em livro a saga da criação no País do mercado de capitais

*MARCOS POGGI, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2018 | 03h00

A FGV Editora acaba de lançar o livro Valeu a Pena! Mercado de Capitais – Passado, Presente e Futuro, de autoria do economista Roberto Teixeira da Costa. Com prefácio de Fernando Henrique Cardoso, apresentação de Edemir Pinto, contracapa com texto de Pedro Malan e orelha assinada por Jorge Paulo Lemann, a obra não poderia ser mais recomendada. Seu autor – cujo currículo, se não se confunde com a própria história do mercado de capitais no Brasil, no mínimo, constitui o melhor roteiro disponível para quem a quiser conhecer – é senhor de um protagonismo impressionante na grande e heroica jornada da criação e continuado aperfeiçoamento daquele mercado, instrumento imprescindível e essencial para o desenvolvimento econômico e social do País.

Com efeito, Roberto Teixeira da Costa, desde sua atuação na Deltec, pioneira na formação de fundos de ações no Braisl, participou das mais importantes instituições e iniciativas ligadas ao mercado de capitais no País. De que são exemplos o Banco de Investimentos do Brasil (BIB), líder no lançamento de ações (IPOs) no País, resultado de uma associação da Deltec com outros importantes atores do mercado, entre os quais o Banco Moreira Sales e a Brasilpar, a primeira empresa de venture capital nestas plagas. Foi também o autor, o primeiro presidente e o principal estruturador da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Adicionalmente, Teixeira da Costa tem ainda, em seu extenso currículo, a presidência da importante Câmara de Arbitragem do Mercado, criada em 2001 pela Bovespa. Além da participação em conselhos (de administração, consultivo ou estratégicos) de mais de 30 importantes empresas no País.

A criação da Deltec é de 1958. Pela leitura do livro, e algum conhecimento da realidade brasileira, pode-se imaginar como deve ter sido difícil a tarefa de dotar o Brasil – um país de economia ainda predominantemente agrária, de tradição essencialmente patrimonialista e com uma nada negligenciável predisposição anticapitalista – de um atuante e dinâmico mercado de capitais.

A propósito desse imenso desafio, para avaliação de quão árdua deve ter sido a heroica jornada a que se dedicou Roberto Teixeira da Costa, é oportuno registrar um curioso fato. Na segunda metade da década de 1940, o consagrado jurista, sociólogo e membro da Academia Brasileira de Letras Oliveira Vianna desenvolveu um importante trabalho sobre os primórdios do capitalismo, consubstanciado num texto de cerca de 250 páginas, sob o título História social da economia capitalista no Brasil. No entanto, totalmente desiludido pelo convencimento de que não havia capitalismo no Brasil, Oliveira Vianna simplesmente abandonou a ideia, descartando todo o esforço despendido no projeto. Aquela importante contribuição à história econômica do Brasil somente pôde ser salva porque, anos depois do falecimento de seu autor, o filósofo Antonio Paim conseguiu recuperar os originais do texto e, com a ajuda de amigos, promover sua edição. 

Quanto à obra literária objeto da presente resenha, apesar da especificidade do tema, que poderia, à primeira vista, ser tido ou entendido como assunto de interesse apenas para iniciados, pode-se dizer que, além de bem escrita, é apresentada numa linguagem e num tom perfeitamente assimiláveis não apenas por economistas, advogados e profissionais do mercado financeiro e de capitais, mas por todos os que tenham algum interesse por temas ligados à economia e à história dessa economia, ou que tenham, de algum modo, de lidar com o mundo dos negócios e da política. Para não falar nos poupadores que se aventuram ou desejem se aventurar em aplicações no mercado financeiro ou de capitais.

Para estes últimos, entre outras contribuições extremamente relevantes, há que destacar na obra em comento o compartilhamento do autor com os leitores de um pouco de sua imensa experiência acumulada em mais de meio século de atuação como gestor de investimentos. Eis, de forma simplificada, alguns dos conselhos genéricos do autor.

• Na dúvida, não invista – invista apenas quando estiver convencido;

• não tenha a ganância de maximizar resultados – o melhor lucro é o lucro realizado;

• desconfie sempre de quem tem certezas;

• e evite opiniões de insiders – eles podem estar querendo ganhar nas suas costas.

Além de várias outras contribuições extraídas da heroica jornada do autor que são de interesse para a consolidação do capitalismo no Brasil, o que de mais relevante surge das páginas do livro de Roberto Teixeira da Costa se liga ao relato das batalhas para instauração e preservação de uma postura ética nos mercados financeiro e de capitais em nosso país. Permeia grande parte do livro uma constante preocupação do autor com o estabelecimento de normas tenazes para assegurar absoluta lisura no mercado. Nesse contexto, sobressai a questão da boa governança corporativa que, além do estabelecimento de princípios com base nos conceitos de stakeholder, compliance e guidance, inclui a inequívoca atenção que deve ser atribuída à responsabilidade social e à sustentabilidade ambiental.

O autor alerta adicionalmente que o mercado (em especial o mercado globalizado), cedo ou tarde, costuma penalizar severamente quem não persegue rígida e tenazmente as regras da boa governança corporativa, de modo a assegurar absoluta lisura no trato dos negócios mobiliários. Em outras palavras, por meio da narrativa de sua heroica jornada, ele nos ensina que é bom negócio – e, por conseguinte, é inteligente – agir com absoluta honestidade. Além de buscar, incessantemente, meios e modos para, idealmente, tentar assegurar a todos os envolvidos total lisura. Assim no mercado como na vida.

*ECONOMISTA E ESCRITOR

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