Uma radiografia do trânsito

Análise de dados traça no mapa da cidade de São Paulo uma mancha de congestionamento que afeta principalmente todo o sul e o oeste do centro expandido

O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2018 | 03h00

Os resultados de pesquisa sobre o tempo de viagem de automóvel, feita com base na tecnologia do GPS - mostrados em reportagem do Estado -, traçam um quadro preciso dos principais pontos de congestionamento da capital paulista e do tempo enorme que por causa deles os motoristas perdem em seus trajetos. Além de constituir um auxílio importante para o planejamento do trânsito, o trabalho serve também para ressaltar mais uma vez a necessidade de melhorar a infraestrutura viária e o sistema de transporte coletivo.

Os dados do estudo feito no último trimestre do ano passado - e que além de São Paulo abrange outras principais capitais - foram obtidos por meio do monitoramento de taxistas e motoristas que prestam serviço à empresa de aplicativos 99. Na capital paulista, o tempo médio de viagem de automóvel nos horários de pico - das 7 às 10 horas e das 17 às 20 horas - é 69% maior. A análise dos dados traça no mapa da cidade uma mancha de congestionamento que afeta principalmente todo o sul e o oeste do centro expandido. Um dos pontos críticos é a Vila Olímpia, onde a perda de tempo - entre os horários de pico e os demais - chega a 79%.

Os congestionamentos são velhos conhecidos dos paulistanos, locomovam-se de carro ou de ônibus. A novidade dessa pesquisa é a precisão dos dados obtidos, graças à metodologia aplicada e à tecnologia do GPS, que permite acompanhar os automóveis em tempo real e traçar seus itinerários com exatidão. Os dados emitidos pelo GPS dos carros possibilitava ver, a cada três segundos, o que estava acontecendo com eles, como explica Ana Guerrini, que coordenou o estudo. Eles serão agora compartilhados com as autoridades de trânsito para ajudar no planejamento da utilização do sistema viário de São Paulo e das outras capitais estudadas.

“Os aplicativos podem indicar os melhores horários para uma pessoa ir a determinado bairro”, afirma o especialista em mobilidade Horácio Augusto Figueira. Isso pode levar a uma melhor distribuição dos deslocamentos ao longo do dia, desafogando o trânsito em áreas críticas. O alcance e a utilidade da pesquisa vão além de benefícios imediatos como esse. Os dados obtidos servem para chamar a atenção novamente para os graves problemas que estão por trás da lentidão dos deslocamentos, que prejudicam toda a população paulistana e não apenas os motoristas. A medição precisa da demora de suas viagens serve também para traçar um quadro amplo da situação do sistema de transporte de passageiros.

Tratando do caso da Vila Olímpia, outro especialista, Flamínio Fichmann, observa que o bairro tinha há 40 anos um sistema viário compatível com a realidade de uma época de sobrados e galpões industriais. Mas a região foi verticalizada, com aumento considerável da população. “Uma solução óbvia”, acrescenta, “seria a ida da Linha 5-Lilás do metrô para a região.” Segundo o Metrô, há estudos preliminares para um ramal da Linha 20-Rosa que passaria pelo bairro.

A referência ao metrô é pertinente, porque os grandes congestionamentos têm relação direta - embora não exclusiva - com as deficiências do transporte coletivo. Se os seus vários modais - metroferroviário, ônibus - tivessem qualidade suficiente, em termos de rapidez e conforto, para atrair parte considerável dos que usam automóvel, o trânsito seria consideravelmente desafogado. É o que acontece nas grandes cidades que dispõem de bom serviço de metrô.

Como a expansão do metrô, pelas próprias características desse modal - além, no caso de São Paulo, de um atraso histórico em sua construção -, é cara e demorada, a curto prazo a solução, ao menos parcial, do problema depende da melhoria do serviço de ônibus, cujas deficiências são notórias. A Prefeitura, a quem esse problema está afeto, tem agora uma boa oportunidade para fazer a tão esperada e há muito prometida reforma do serviço de ônibus. A licitação - já em fase final - para a escolha dos novos concessionários tem pontos positivos que, se implementados devidamente, podem representar um grande avanço.

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