Uma reunião vazia

Talvez da longa reunião que mantiveram quinta-feira na Casa Rosada, a sede do governo argentino, as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner guardem para o futuro emocionadas recordações sobre a conversa que tiveram a respeito do filme Infância Clandestina, do cineasta Benjamín Ávila, que retrata a ditadura militar na Argentina pelos olhos de uma criança. Dos reais interesses dos países que representam, e que motivaram o encontro, porém, pouco haverá de que se lembrar.

O Estado de S.Paulo

27 Abril 2013 | 02h05

O que se sabe é que, quando as presidentes trataram de assuntos de interesse bilateral, foi para reafirmar enfaticamente as platitudes de sempre, como a afirmação de que as boas soluções são alcançadas por meio do diálogo. As grandes questões que marcam as relações entre os dois principais países do Mercosul, e de fato justificariam encontros desses tipo, nem foram mencionadas publicamente por elas.

O único tema relevante que Dilma e Cristina discutiram foi a decisão da Vale de suspender o projeto de investimentos de US$ 6 bilhões em mineração na Província de Mendoza, onde já havia investido US$ 3 bilhões. Para o governo argentino, a única solução possível para o caso é a Vale retomar o projeto interrompido, e contava com a ação do governo brasileiro para forçar a empresa a permanecer na Argentina.

Sem se comprometer explicitamente a intervir numa decisão estratégia de uma empresa privada, como é a Vale, Dilma declarou à imprensa, ao lado de Cristina Kirchner, ter "firme convicção", como presidente do Brasil, de que, nesse caso, "o diálogo é o melhor caminho para se encontrar soluções". Resta saber que efeito prático declaração tão óbvia poderá ter para as complicadas relações do governo de Cristina Kirchner com empresas estrangeiras, entre as quais outras brasileiras, como a Petrobrás.

Essa não foi a única declaração genérica feita pela presidente brasileira durante sua viagem a Buenos Aires. Ela referiu-se ao fato de os dois países terem sido menos afetados pela crise mundial do que o mundo industrializado e garantiu que "nós enfrentamos essa crise não com menos, mas com mais integração".

Sobre as relações bilaterais, Dilma disse que elas "são pautadas pelo diálogo, pela transparência e pelo fato de que nós temos que construir o crescimento e a prosperidade de nossos países e de nossa população". Disse ter também consciência da importância das relações comerciais entre Brasil e Argentina e da necessidade de ampliar o comércio bilateral, os investimentos, o intercâmbio nas áreas de pesquisa, ciência, tecnologia, inovação e atividades culturais. Nesse ponto, referiu-se ao cinema argentino e ao filme que tanto impressionara a presidente argentina, que lhe prometeu enviar uma cópia.

Ao saudar Cristina Kirchner no jantar oferecido à comitiva brasileira, Dilma, como requeria o ambiente, foi mais formal, mas repetiu algumas dessas ideias. "Somos sócios comerciais de primeira grandeza" foi uma de suas afirmações. "Devemos tratar tanto os investimentos como as nossas relações comerciais recíprocas de forma mutuamente respeitosa e equilibrada" foi outra.

Empresários brasileiros que mantêm investimentos e negócios na Argentina gostariam de acreditar que as palavras da presidente não são vazias, como foi a reunião na Casa Rosada. Mas, pela experiência dos últimos anos, não têm esperanças.

As frequentes medidas de restrição impostas pelo governo Kirchner à entrada de produtos brasileiros no mercado argentino, que alteraram dramaticamente a tendência do comércio bilateral, estão sendo toleradas pelo governo Dilma - mesmo que essas ações desvirtuem o estatuto do Mercosul, que, sendo formalmente uma união aduaneira, não aceita restrições à circulação de mercadorias entre os países que integram o bloco. Igualmente contrário ao atual estatuto do Mercosul é o acordo automotivo em vigor entre os dois países e que, como faz com êxito há anos, o governo argentino insiste em renovar.

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