Uma safra especialmente bem-vinda

A previsão de uma safra de 154 milhões de toneladas de grãos, um novo recorde, é especialmente bem-vinda quando o País enfrenta fortes pressões inflacionárias e há tanta incerteza sobre a evolução geral dos preços - um importante fator de preocupação apontado na última Ata do Comitê de Política Monetária (Copom). A ata e a nova estimativa de safra da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, foram divulgadas na manhã de quinta-feira. Na semana anterior, a FAO, o organismo das Nações Unidas para agricultura e alimentação, havia publicado uma avaliação sombria das condições do mercado internacional. Seu índice de preços de alimentos havia atingido em fevereiro o nível mais alto desde o início da série, em 1990.

, O Estado de S.Paulo

13 Março 2011 | 00h00

A perspectiva de mais uma boa temporada agrícola no Brasil é duplamente animadora. Do lado interno, contribuirá para atenuar as pressões inflacionárias, provenientes principalmente do exterior e reforçadas no mercado interno pela demanda, ainda forte, apesar de alguma desaceleração da economia. As estimativas da Conab apontam aumentos de produção de alimentos essenciais, como feijão, arroz e trigo (12,6%, 11,8% e 17%, respectivamente, mais que na safra 2009/10). Os estoques finais projetados para os três produtos são maiores que os do ano anterior. Além de tornar o abastecimento mais seguro, essa melhora das condições de oferta poderá contribuir para arrefecer a forte alta dos preços. A produção de soja deverá ser 2,3% maior que a da safra anterior. A de milho deverá diminuir 1,7%. Mas a colheita dos dois produtos deverá ser mais que suficiente para garantir um abastecimento tranquilo do mercado interno e para sustentar uma vigorosa exportação.

No ano passado, o complexo soja (grãos, óleo e farelo) se manteve como item principal da pauta de exportações do agronegócio e rendeu ao País R$ 17 bilhões, 22% da receita cambial do setor (US$ 76,4 bilhões). O milho é importante para as vendas externas do agronegócio principalmente como insumo destinado à produção de aves e suínos, mas também tem sido exportado na forma de matéria-prima.

Em 2010, o superávit comercial do agronegócio chegou a US$ 63 bilhões e foi bem mais que suficiente para compensar o déficit acumulado no comércio de bens industriais. O saldo positivo do agronegócio foi o triplo do superávit obtido pelo Brasil no comércio global de mercadorias, no ano passado. O bom resultado foi em parte propiciado pela evolução favorável dos preços internacionais.

Em janeiro o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, estimou para este ano exportações de produtos agropecuários de aproximadamente US$ 85 bilhões, favorecidas, mais uma vez, pela forte procura da China e de outras economias dinâmicas e pelas cotações internacionais ainda elevadas. Naquele momento, as estimativas da safra de grãos eram menores que as divulgadas nesta quinta-feira. As novas projeções são explicadas pela melhora das condições do tempo - as chuvas voltaram, depois de longa estiagem no Sul - e por um levantamento mais preciso das áreas de plantio.

Com expansão média de 3,67% ao ano, a agropecuária foi o setor com maior crescimento na última década, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo período o conjunto da economia brasileira cresceu em média 3,59% ao ano. O desempenho do setor foi favorecido pela adoção do câmbio flutuante em 1999, pela oferta de crédito e pelo continuado esforço de modernização, com muito investimento em máquinas e equipamentos.

As condições externas também foram favoráveis. Houve uma longa fase de prosperidade global até 2008 e as economias mais dinâmicas, lideradas pela China, continuaram em crescimento mesmo depois disso, mantendo a demanda de alimentos e matérias-primas em firme expansão. As oportunidades criadas pelo mercado global só foram amplamente aproveitadas, no entanto, porque o agronegócio brasileiro, em acentuada modernização há 30 anos, estava preparado para ocupar espaços - apesar da guerra declarada ao setor por uma parte do grupo no poder a partir de 2003.

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