Uma viagem inútil

Não perguntem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por que ele foi ao México, se não quiserem ouvir uma resposta digna de Cantinflas. Ele só poderá responder com uma enrolação sobre a amizade dos povos latino-americanos ou sobre o grande potencial de cooperação entre o Brasil e o México. Mas esse potencial, depois de seu encontro com o colega mexicano Felipe Calderón, continuou tão pouco explorado quanto antes. Raras vezes na história da América Latina dois chefes de governo terão tido uma conversa tão pobre de assuntos e de conseqüências práticas. O presidente brasileiro deixou o México com uma só novidade valiosa na bagagem, o Colar da Ordem da Águia Asteca, uma condecoração protocolar. Não se deu nenhum passo concreto para ampliar o acordo de complementação econômica assinado em 2002. Empresários brasileiros e mexicanos participaram de encontros com os dois presidentes e foram exortados a recorrer à imaginação para expandir os investimentos e as trocas. Lula os desafiou a mostrar ousadia. Mas empresários não precisam de exortações como essa. Ganhar dinheiro é a sua especialidade e eles têm procurado oportunidades para investir e aumentar o comércio. Falta os governos negociarem condições mais amplas de integração - e isso não foi feito. O governo e os empresários mexicanos têm interesse objetivo em maior aproximação com os mercados sul-americanos. O Brasil, disse o presidente Calderón, pode ser uma porta para o Mercosul. Foi um comentário um tanto retórico, poucos dias depois de uma visita do presidente argentino, Néstor Kirchner. Mas o Brasil poderia ser o ponta-de-lança de uma aproximação maior. A etapa final seria um acordo de livre-comércio entre México e Mercosul. O México não poderia integrar o bloco, pois Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai compõem uma união aduaneira. Os mexicanos não teriam como participar dessa união, adotar a tarifa externa comum e continuar como sócios do Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Apesar desse limite, as possibilidades de integração comercial seriam consideráveis. Falou-se numa idéia mexicana de formar uma Alca (Área de Livre Comércio das Américas) sem Estados Unidos e sem Canadá. O chanceler brasileiro Celso Amorim classificou a sugestão como "perfeitamente razoável". Mas essa proposta só pode fazer sentido, em termos pragmáticos, para os mexicanos, pois eles já têm um acordo de livre-comércio com outras economias da América do Norte. Uma Alca digna desse nome existiria para eles e para alguns outros países, como o Chile, mas não para o Brasil, a Argentina e vários outros países sul-americanos. No mundo de fantasia de alguns gênios estrategistas do governo petista, esse arranjo seria quase perfeito. Também não houve progresso importante no plano da colaboração na área energética. Houve um vago entendimento para cooperação tecnológica entre Petrobrás e Pemex, a estatal mexicana do petróleo - tudo com muito cuidado para não ferir o regime de monopólio vigente no México. Mencionaram-se, além disso, vagas idéias de cooperação em agricultura e no setor de biocombustíveis. O etanol pode interessar principalmente à Cidade do México, uma das mais poluídas do mundo. Nenhum desses assuntos, especialmente nesse estágio de conversação, justifica um encontro de presidentes. A falta de assunto e de sintonia foi quase constrangedora. O presidente mexicano já havia conversado com o argentino Kirchner sobre a ocupação rotativa de uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não poderia, portanto, ser frutífera nenhuma conversa entre Lula e Calderón sobre a ambição brasileira de ocupar uma cadeira permanente no Conselho. O embaraço dos dois ficou evidente quando surgiu uma pergunta sobre o assunto numa entrevista coletiva. Apesar da falta de assunto, o presidente Lula, como de costume, pôs o texto de seu discurso de lado e desembestou a falar no jantar oferecido na segunda-feira à noite pelo governo mexicano. Em seu entusiasmo, chamou o colega de Caldeirão pelo menos duas vezes e celebrou a substituição da Europa e dos Estados Unidos pela América Latina no coração dos novos governantes da região. O salão estava cheio de empresários mexicanos e brasileiros. Aqueles dirigem 75% de suas exportações aos Estados Unidos. Estes vivem bradando por maior acesso ao mercado americano. Diante de quem Lula imaginava estar discursando?

O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2008 | 00h00

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