União Europeia em alerta

A escolha de Conte, um advogado e acadêmico sem qualquer experiência em política partidária, foi reflexo da falta de lideranças na chamada política tradicional italiana

O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 03h00

A nomeação de Giuseppe Conte como o novo premiê italiano não bastou para pôr fim à crise política derivada do impasse para a formação de uma coalização de governo após o resultado das eleições para a Câmara e o Senado, ocorridas em março. Naquela ocasião, nenhum partido ou coligação saiu das urnas com força suficiente para indicar o primeiro-ministro.

A bem da verdade, a escolha de Conte, um advogado e acadêmico sem qualquer experiência em política partidária, foi reflexo da falta de lideranças na chamada política tradicional italiana. Tal é o dissenso entre as legendas que foi necessário recorrer a um neófito para que a Itália não continuasse sem governo. Não adiantou.

Apenas quatro dias após ter sido designado pelo presidente Sergio Mattarella para formar um governo, Giuseppe Conte renunciou à incumbência diante da forte resistência do presidente em aceitar a nomeação de Paolo Savona como o novo ministro da Economia. Savona é conhecido por suas posições contrárias ao euro, o que, não sem razão, preocupa Sergio Mattarella e outras lideranças da União Europeia (UE).

“Se o professor Savona não pode ser ministro porque tem o defeito de defender os cidadãos italianos, pondo em discussão as regras europeias, então sou eu quem saio do governo e levo Paolo Savona”, disse Matteo Salvini, líder da Liga Norte, partido de extrema direita que forma com o partido “antissistema” Movimento 5 Estrelas (M5S) a coalização responsável pela indicação de Giuseppe Conte.

Tanto Matteo Salvini como Luigi di Maio, um dos líderes do M5S, negociam com o presidente Sergio Mattarella uma solução para o impasse político. A realização de novas eleições não está descartada.

Pouco após a renúncia de Conte, o presidente italiano convocou o economista Carlo Cottarelli para organizar um governo de transição. Em nota oficial, Sergio Mattarella disse que pediu para uma “pasta estratégica” (o Ministério da Economia) um “expoente político”, não “um defensor da saída da Itália do euro”, o que implicaria “risco para a poupança dos italianos”.

Carlo Cottarelli é respeitado por seu trabalho no Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelos ajustes que promoveu na economia italiana durante o governo de Enrico Letta, em 2013. Sua indicação deverá acalmar todos os que estão preocupados com os rumos da quarta maior economia da UE. 

A coalização formada pelo M5S e pela Liga Norte, responsável pela indicação de Giuseppe Conte, ainda constitui importante ator político, mesmo após a renúncia. A formação do novo governo passará por negociações com este bloco. Nas eleições de março, o M5S foi a legenda que obteve o melhor desempenho individual, com 36,2% dos votos. A Liga Norte obteve 17,4% dos votos, acima da Forza Itália (14%), do ex-premiê Silvio Berlusconi.

Tanto o M5S como a Liga Norte se caracterizam por um forte viés populista em suas propostas e por adotarem uma posição anti-União Europeia.

A preocupação com a ascensão do populismo no continente europeu não é nova, mas agora chega ao coração da UE. A Itália é o primeiro país do grupo que assinou a formação do bloco a ver a ascensão de uma coalização populista.

O assim chamado “contrato governamental” assinado entre o M5S e a Liga Norte está repleto de propostas de cunho populista, como corte de impostos, abandono de uma necessária reforma previdenciária na Itália – país com a população mais idosa da Europa – e a criação de um programa que pretende pagar ¤ 780 por mês a aposentados e pessoas de baixa renda. O custo para a concessão desse benefício está estimado entre ¤ 100 milhões e ¤ 170 milhões por ano. Estas propostas deverão ser revistas por Carlo Cottarelli.

A Itália deve ¤ 2,3 trilhões, cerca de 132% de seu Produto Interno Bruto. É a segunda maior dívida da Europa, atrás da Grécia. Com razão, a União Europeia deve se preocupar com a fonte de financiamento da agenda política do governo italiano. Uma séria crise econômica na Itália tem potencial para afetar todo o bloco europeu.

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