Universidades católicas

A recente nomeação da reitora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professora Anna Maria Marques Cintra, causou diversas reações na comunidade acadêmica dessa instituição de ensino superior: estranheza, contrariedade e aprovação. Aparentemente, o motivo foi a escolha, pelo grão-chanceler da universidade, não do primeiro nome da lista tríplice que lhe foi apresentada, mas do terceiro. Reações até certo ponto compreensíveis.

CARDEAL-ARCEBISPO , DE SÃO PAULO, DOM ODILO, P. SCHERER, CARDEAL-ARCEBISPO , DE SÃO PAULO, DOM ODILO, P. SCHERER, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2012 | 02h08

Talvez algumas reações tenham decorrido de interpretação equivocada do processo de escolha do reitor e do vice-reitor da PUC de São Paulo. Conforme o Estatuto da PUC-SP, compete ao Conselho Superior da Universidade (Consun) "organizar, através de consulta direta à comunidade, por meio de processo eletivo, a lista tríplice de nomes de professores para escolha e nomeação do Reitor e respectivo Vice-Reitor, nos termos deste Estatuto, encaminhando-a ao Grão-Chanceler" (artigo 21, XXII).

E prevê ainda o mesmo Estatuto que ao grão-chanceler compete "escolher e nomear o Reitor e o Vice-Reitor dentre os professores de uma lista tríplice organizada e encaminhada pelo Consun" (artigo 43, II). Portanto, não se trata de escolha direta do reitor e do vice pela comunidade universitária. Se assim fosse, não haveria sentido na apresentação de uma lista tríplice pelo Consun e estaria prevista a eleição direta, pura e simples, do reitor e do vice pela comunidade universitária. Não é isso, todavia, o que consta no estatuto.

É verdade que a escolha do reitor recaiu, tradicionalmente, sobre o nome mais votado, pelas razões que a autoridade competente julgou convincentes - eu mesmo, na escolha precedente, procedi dessa forma. Mas se, desta vez, se seguiu outra ordem, é porque essa possibilidade sempre esteve implicada na própria apresentação da lista tríplice pelo Consun ao grão-chanceler.

Toda essa questão leva a refletir algo mais sobre as universidades católicas, que estão ligadas à Igreja e são regidas, quanto à sua natureza e à sua missão, pela Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae (Do Coração da Igreja, 1991), do papa João Paulo II. Elas têm sua origem "do coração da Igreja" e expressam, da maneira que lhes é própria, a missão da Igreja na busca e na explicitação do verdadeiro saber (sapientia) e do bem da humanidade. No que se refere ao ordenamento acadêmico, elas seguem a legislação civil do país onde se encontram; mas quanto à sua identidade, à sua orientação e aos seus objetivos específicos, estão sujeitas às normas da Igreja.

Uma universidade católica, como qualquer outra, é uma comunidade de estudiosos, dos vários campos do saber humano; também ela se dedica à pesquisa, ao ensino e às várias formas de serviço à sociedade, compatíveis com sua identidade e sua missão. Enquanto "católica" e, em nosso caso, também "pontifícia", ela está ligada à Igreja, segue as suas diretrizes e deve realizar as suas atividades de maneira coerente com os ideais, princípios e comportamentos católicos - nem se poderia esperar que fosse diversamente, ou até o contrário disso.

No entanto, não equivale isso a dizer que todos os que frequentam uma universidade católica devam ser confessionalmente católicos. A própria PUC-SP acolhe muitos estudantes que não professam a fé católica. E são todos bem-vindos, a liberdade de consciência é plenamente respeitada e o credo católico não é imposto a ninguém. É certo, porém, que a própria universidade tem a missão de apresentar e honrar a sua identidade diante de todos os que a frequentam e integram a comunidade acadêmica.

A liberdade de pensamento, de ensino e de manifestação das ideias, consagrada pelas Constituições dos países democráticos, assegura esse direito às instituições confessionais e não confessionais. Regimes totalitários, geralmente, são intolerantes em relação a universidades "confessionais", ou que não se alinhem plenamente ao pensamento único e oficial, impedindo até mesmo a sua existência e a sua livre atuação.

Poderia parecer que as universidades católicas, e outras de tipo confessional, existem tão somente para a vantagem das próprias instituições que as mantêm, mas isso é outro equívoco. Elas são, antes de mais nada, instituições de educação, de ensino, de formação de pessoas e de fomento da cultura dos povos, à luz de suas próprias percepções e interpretações da realidade. E não deve ser visto como um dano para a sociedade que haja instituições com diversos tipos de diretrizes na educação e na formação dos cidadãos. O conjunto da cultura e do convívio social fica enriquecido com uma sadia pluralidade educacional. Contrariamente, se tudo tendesse ao pensamento oficial e único, haveria o risco de uma cultura monótona e com horizontes sempre mais estreitos. Isso não representaria um benefício para a convivência plural e democrática.

A universidade católica tem uma contribuição específica a dar para a formação cultural; e essa contribuição decorre da visão cristã sobre o homem e o mundo, que tem desdobramentos, entre outros aspectos, na filosofia em geral, na antropologia, na ética, na educação, na psicologia, na economia, na política e também na técnica. Esses princípios cristãos oferecem uma forma própria de interpretação sobre o homem, a sociedade, as relações sociais e a História; e também, sobre a natureza e a interação do homem com o ambiente da vida.

Mais uma vez, entendo que a universidade católica não tem a finalidade de impor as expressões próprias de uma "cultura cristã" às pessoas e ao convívio social, mas de oferecê-las como contribuição, que procede da sua própria autoconsciência, para o enriquecimento da cultura e da vida social.

A universidade católica é, por excelência, um espaço de diálogo cultural, onde ela tem muito a oferecer, ex corde Ecclesiae, a partir do âmago de sua identidade, de sua mensagem e da experiência secular da Igreja.

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