Valores destroçados

A taxa anual de homicídios intencionais no Brasil é de 25,7 mortes por cada 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos é de 5,8; na Argentina é de 5,2; na Palestina é de 4; na Índia é de 3,4; na China é de 2,3; na Inglaterra é de 2; no Chile é de 1,9; em Israel é de 1,8; na França é de 1,5; na Itália é de 1,2; na Espanha é de 1,1; na Alemanha é de 0,98; no Japão é de 0,64. Esses dados nos colocam na posição assombrosa de sociedade mega-assassina do mundo contemporâneo, sem que isso cause calafrios em nossos governantes, autoridades e políticos em geral, tanto que eles nunca tratam do desagradável assunto, também por sua baixa repercussão eleitoral. É como se fizesse parte das características brasileiras o valor barato da vida, o caráter descartável dos seres humanos que habitam o território nacional.Esses dados deveriam retirar de qualquer autoridade brasileira, em organismos internacionais, a condição moral de se pronunciar sobre o que se relacione à proteção da vida - pois quanto a esse tema viramos um dos povos mais insensíveis do mundo. A naturalidade com que aqui se trata o desrespeito à vida e a resignação ante a impunidade geral têm levado nossa sociedade ao contentamento com a pequena punição. Por exemplo, quando um facínora que destruiu uma vida humana de forma banal ou torpe recebe a "pesada" condenação de 18 anos de prisão (que a "progressão" da pena pode reduzir a um sexto, livrando-o depois de apenas três anos de "bom comportamento" na cadeia), os parentes da vítima agradecem, sensibilizados, o fato de "se ter feito justiça". Quer dizer, até estes se acostumaram a deixar muito barato a perda sofrida.É claro que não se teria chegado, no Brasil, a esse desprezo pelo maior dos valores - que é a vida humana - se não se tivesse passado pelos destroços de tantos outros. Enquanto o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), em seu recente Relatório Mundial sobre Drogas 2009, comemorava o sucesso do combate internacional às drogas - pois só no último ano o mercado global de cocaína teve queda de produção de 15% -, seu mesmo relatório mostrava que no Brasil (e só no Brasil) o consumo de cocaína quase dobrou nos últimos três anos. Eis um dos trágicos sintomas de que a juventude brasileira está perdendo suas referências, os princípios que a estruturavam, o conjunto de ideais que lhe davam consistência mental, emocional e equilíbrio em seu convívio social, para se deixar arrastar por supostos prazeres, poderes, ilusórias atrações, desfrutes e exibições, sem preocupação alguma com os direitos do próximo, sem generosidade nem solidariedade para com os semelhantes que navegam no mesmo barco de sua vida.Pesquisas recentes têm detectado que uma das causas do baixo nível de eficiência do ensino no Brasil - o que coloca nossa juventude inteiramente defasada em relação à de inúmeros outros países do mundo, sejam desenvolvidos ou emergentes - é o grau de violência de nossas escolas, especialmente as de periferia (mas não só elas). Em certas regiões de nosso país, matricular-se equivale a alistar-se e frequentar o colégio (professores ou alunos) se compara a se engajar em missões bélicas de alto risco - razão por que a mobilização pela sobrevivência física deixa pouco espaço para a concentração no aprendizado técnico-científico.Não se pode afirmar que nosso processo de destruição de valores seja algo de origem recente. Mas também não se pode negar que nos últimos tempos temos assistido a um massacre brutal da noção do que seja honesto, na vida política, nos Poderes de Estado e nas instituições da República. Tem havido uma tal rotina de bandalheiras que a própria ideia de crime se esvazia de sentido, cedendo lugar a formulações enganosas sobre o que seja certo ou errado no comportamento das pessoas públicas.O que causa amortecimento moral na juventude brasileira é a impunidade sistemática e, sobretudo, o apoio dado aos notórios corruptos por aqueles que deveriam dar o melhor exemplo, mas atribuem ao moralismo "denuncista" da classe média (insultando-a) a causa de todos os escândalos recentes do Brasil, do tipo mensalão, sanguessugas, dossiês dos aloprados, dólares na cueca, caixa 2, venda de sentenças, cartões corporativos, farra das passagens aéreas, desvios de verbas indenizatórias, tráfico de influência com empréstimos consignados, atos secretos, nomeações, exonerações e reajustes secretos, superfaturamento de obras públicas, fraudes em licitações, remessa de dinheiro público roubado para contas secretas no exterior, emprego de funcionários fantasmas, polpudos cargos públicos em Brasília para parentes residentes nos Estados, propinodutos para a obtenção de concessões públicas e falcatruas, maracutaias e cambalachos assemelhados.Essa impunidade é como uma pandemia que se alastra e leva às crianças assassinadas em proporções nunca vistas, às vitimas de assaltos "apagadas" sem nenhuma reação e aos criminosos que confessam em detalhes suas atrocidades perante as câmeras de televisão, como se apenas participassem de um emocionante reality show. Bem a propósito, é para faturar com as sensações de uma sociedade moralmente doente que surge uma aberração ética e estética como esse programa de TV chamado Jogo Duro, em que o medo, o nojo, a dor, a humilhação e a degradação de seres humanos são remunerados com disputadas cédulas de dinheiro, num abjeto simbolismo do ponto a que chegamos, na quebra da dignidade das pessoas.Só resta a pergunta: Há jeito de virar esse jogo? Resposta: Há! (Há! Há!) Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor. E-mail: mauro.chaves@attglobal.net

Mauro Chaves, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2009 | 00h00

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