Verdade sobre os ônibus

Seria muito bom que o aumento do número de viagens de ônibus detectado pela São Paulo Transportes (SPTrans) tivesse o significado e a importância que ela lhe atribui - o de consequência de medidas da Prefeitura para privilegiar o transporte coletivo. Afinal, a melhoria e a ampliação dos serviços de ônibus, metrô e trens, atraindo paulistanos que utilizam carro para seus deslocamentos diários, são a única solução para o grave problema do transporte de passageiros na capital, cujas deficiências submetem os paulistanos a longas e exaustivas viagens. Mas, infelizmente, não é isso o que está acontecendo.

O Estado de S.Paulo

20 Abril 2014 | 02h10

No primeiro trimestre deste ano, em comparação com igual período de 2013, houve 14 milhões de viagens de ônibus a mais. O total passou de 688,3 milhões para 702,6 milhões, um aumento de 2,7%. Para a SPTrans, isso se deve ao "conjunto de medidas" adotadas pelo governo Fernando Haddad para dar preferência ao meio de transporte coletivo de sua responsabilidade - o serviço de ônibus -, melhorando-o para que consiga atrair os que utilizam transporte individual.

Entre essas medidas, ela destaca, é claro, a implantação de faixas exclusivas para ônibus, que o prefeito e seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto, não se cansam de exaltar como uma verdadeira maravilha, destinada a revolucionar o sistema de transporte de passageiros, juntamente com os corredores. Não por acaso, elas já atingiram 324 quilômetros, mais do que o dobro do prometido por Haddad para todo o seu governo. Segundo a Prefeitura, as faixas reduziram em 38 minutos, em média, o tempo de viagem dos ônibus que por elas trafegam. Mesmo supondo-se - para argumentar - que esse cálculo tenha o rigor desejável, ainda assim seu alcance é bem menor do que faz supor o alarde das autoridades. Seria uma melhoria restrita, que não afeta o serviço como um todo.

Por essa e outras razões, especialistas receberam com reserva a conclusão da SPTrans. Chamam a atenção, por exemplo, para o fato de o aumento do número de viagens de ônibus ainda ser pequeno para indicar uma tendência. Como diz o urbanista e consultor de transportes Flamínio Fichmann, uma variação de menos de 3% em um período atípico - de férias e carnaval, como é o de janeiro a março - "não pode ser considerada uma tendência". E ele toca ainda em dois outros pontos importantes.

Lembra que, em 2013, a SPTrans mudou várias linhas de ônibus, cortando algumas mais extensas, o que obrigou muitos passageiros a pegar mais ônibus para fazer o mesmo percurso. E isso pode ter influência no aumento do número tanto de viagens como de passageiros. É mais uma razão - acrescente-se - para que o aumento não tenha o significado que lhe querem atribuir.

Fichmann aponta uma questão mais importante, ao afirmar que "provavelmente não haverá uma transferência muito significativa dos meios individuais de transporte para os públicos só com os 300 e tantos quilômetros de faixas. Só se melhorar muito o sistema você pode ter uma migração".

Essa melhora certamente deve ser entendida como uma reforma ampla do serviço de ônibus. Um dos seus pontos principais é sabidamente a reorganização das linhas, para adaptá-las às mudanças ocorridas na cidade nos últimos anos, dando assim maior racionalidade ao sistema. É uma medida de custo relativamente baixo e de grande alcance, há muito prometida, mas nunca adotada, porque não corresponde aos interesses das empresas concessionárias, que ganham muito com a situação atual.

As mudanças que têm sido feitas nas linhas, além de tímidas e sem base em estudos consistentes - se eles existem, onde estão? -, parecem corresponder mais aos interesses das empresas que aos dos passageiros. Pois é de estranhar que elas, que nunca morreram de amores pela reorganização das linhas, e sempre reagem quando se sentem contrariadas, venham aceitando bem as poucas mudanças feitas.

É de questões como essa que a Prefeitura deve se ocupar, se quer melhorar o serviço de ônibus, não de brilharecos como as faixas exclusivas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.