Você (ainda) tem a força!

O PT – que já andou namorando a ideia de que um impeachment seguido de um governo “de união nacional” chefiado pelo PMDB, presidindo a fome que será exigida pelo desastre que contratou para o Brasil, daria o álibi perfeito para Lula voltar como salvador da pátria em 2018 – agora está pacificado e firmemente unido em torno da tese do tudo ou nada.

FERNÃO LARA MESQUITA, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2015 | 02h55

Se há uma “qualidade” que não pode ser negada ao partido é a sua capacidade de enxergar clara e objetivamente a realidade dos fatos e não discutir com eles quando o que está em jogo é a disputa pelo poder. Quem se engana, quando o acusam de brigar com a realidade, são os críticos que medem suas ações pela lógica econômica ou pelo interesse da República, que jamais entraram em suas considerações. Para a consecução do único objetivo que lhe interessa, o que dizem os fatos é que a via eleitoral está esgotada, tanto mais quanto mais para a frente se olhar no horizonte. Não é mais de anos, é de décadas de vacas magérrimas que estamos falando. Eleições – depois da última pela qual passou raspando à custa de quebrar a Petrobrás (e não só ela) para embalar em bilhões o maior conto do vigário a que o eleitorado nacional jamais foi submetido – são, doravante e até onde se pode enxergar, o perigo a evitar.

Muito antes do previsto, portanto, o furacão Dilma combinado com o fim do milagre chinês empurra o PT para a segunda fase do seu projeto hegemônico, antes, ainda, que a primeira tivesse sido completada. O marco oficial dessa inflexão está na desistência, sacramentada pela Fundação Perseu Abramo, de tentar curar a economia da doença que o lulopetismo instilou em suas veias para se agarrar à equação que, até há pouco, ele próprio, tinha admitido insustentável e tentar durar o bastante no poder, com expedientes protelatórios e a quantidade de “diálogo” ($$) que for necessária no atacado e no varejo para que a manobra se torne irreversível e passar, então, a ancorar de peito aberto seu projeto naquilo que seus liderados do Foro de São Paulo já ancoram o seu. É um ato de desespero, mas é a direção para a qual apontam os fatos. Da combinação de aparelhamento do Estado e das instituições democráticas com farra fiscal para subsidiar a festa do consumo e derrotar opositores nas urnas, vamos sendo inexoravelmente empurrados para o funil da combinação de instrumentalização da miséria com violência para tirar opositores do caminho a qualquer custo, que caracteriza todos os Estados bolivarianos com economias agonizantes à nossa volta.

Para tanto será necessário acelerar o que ainda está por fazer da “Fase 1”, que é a da ocupação do Estado (já completada) e da desmontagem das defesas democráticas da Nação (ainda por completar). É esse o sentido da tentativa de golpe contra o TCU. Mesmo diante da inusitada resistência desse tribunal, porém, nada autoriza subestimar a capacidade do PT de consegui-lo. O PMDB, por exemplo, acredita piamente nisso. Ao ver Lula assumir o leme e dobrar a aposta em sua inabalável convicção de que todo mundo é podre, bastando, para cavalgá-los, melhorar as condições ambientais para que apodreçam mais rapidamente, a raspa do tacho do partido, que dias atrás ainda hesitava diante da perspectiva de tudo se esboroar nas mãos de Dilma, entendeu que chegou a hora PMDB – que, diante da inevitabilidade do desastre, chegou a hora do “free for all” e se perfilou, salivante, em ordem unida.

A “reforma ministerial”, que começou a pretexto do “ajuste”, converteu-se oficialmente em mais uma vasta operação de distribuição de postos de tocaia aos dinheiros públicos para os membros das organizações investigadas pelo juiz Moro, para tratar de impedir que a lei alcance o PT antes que ele tenha tempo de colocá-la exclusivamente ao seu serviço. A crônica política está reduzida a um relato diário sobre quem comprou quem, por quanto e para quê. As “partes” negociam em público os nacos daquilo que a nenhuma delas pertence, ameaçando represálias contra a Nação sequestrada. Cada etapa da farsa é encerrada com a manifestação regulamentar do jurista ou do “especialista” estrelados da vez para, invocando umas e esquecendo outras conforme a conveniência do momento, pôr as leis a serviço do crime e garantir que não há nenhum “elemento técnico” que permita deter essa mixórdia. Quando até isso falha, recorre-se aos agentes do aparelhamento das instituições para exigir deles mais um passo em direção ao ponto de não retorno.

A capital federal é cada vez mais um gueto que o resto do País repudia. Trancados em suas “dachas”, impedidos de frequentar o Brasil que os brasileiros frequentam, ameaçados de linchamento onde quer que apareçam em público, não há, porém, instituição que alcance os sócios do assalto ao Brasil. Mas não é mesmo em busca de aprovação que está quem troca abertamente nacos do orçamento público pela vontade manifesta de seus eleitores. Só uma ação decidida das ruas poderá alterar o rumo dos acontecimentos. E não há nenhum “golpismo” nisso. Ao contrário, é essa a essência do processo democrático. Nos governos “do povo, pelo povo e para o povo” não há lei alguma que, legitimamente, possa tornar ilegal a vontade do povo. Ele é a única fonte de legitimidade de onde, por enquanto até para a nossa “Constituição dos Miseráveis”, emana todo o poder.

Não é o Brasil, portanto, que tem de perguntar a Brasília o que ele pode ou não pode fazer com os mandatos que temporária e condicionalmente concede a seus representantes. É o contrário.

O povo põe, o povo “des-põe”.

Como está absolutamente só, traído por todos os seus representantes eleitos, se quiser manter abertos os canais que restam e alimentar a esperança de reconstituir os que estão obstruídos pela cooptação e pela corrupção, o povo brasileiro terá de demonstrar na rua o tamanho dessa vontade. Conseguirá o que estiver realmente disposto a conseguir, pois a democracia brasileira está desorientada e cambaleando, mas ainda não está completamente surda.

* FERNÃO LARA MESQUITA É JORNALISTA, ESCREVEEM WWW.VESPEIRO.COM

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