Vulcão extinto

Nenhum prazer positivo o poder proporciona a quem deseja subir e sufocar os outros

*PAULO DELGADO, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2018 | 03h00

Um, como Calígula, quer outra vez fazer seu cavalo cônsul. Outro, pensava atear fogo em Roma, mas bateu de frente com um Nero mais ligeiro.

A República não encoraja a ninguém seu vício exagerado, nem permite impor ao eleitor visita guiada até a urna. Quem brinca com o humor do povo pode até dar peso à fumaça, mas a vida assumirá seu erro logo à frente. Assim, que ninguém confunda seus medos com nossos males.

Mande parar de dar cachaça de presente para ele. Não tenho mais onde pôr, nem acho que um diplomata esteja oferecendo ao presidente algo da sua adega. Madame, não é da natureza de nossa diplomacia ver incorreção na busca da felicidade na carreira. Eles se agitam nos círculos fúteis e nos úteis em busca de promoção. A maioria não sabe bem quem vem antes, se gregos ou romanos, são produto do esporte praticado pelo chanceler e a mania da profissão de cultivar amizades lucrativas. Mas entendo sua angústia, das coisas desagradáveis da vida um embaixador puxa-saco é pior que um jantar de homens embriagados.

No outro polo, fazendo noite sobre seus pecados, ele delira: vou me impor como raposa, fingir a determinação de um leão, mas Deus me livre de provocar a ira de um tolo e ser por ele esfaqueado como um cão.

Não é da política que eles gostam. É da vida descuidada, ardilosa e sem lei que encontram no meio dela. Qualquer coisa que se diga dessa campanha, aos dois correspondem mais da metade dos problemas.

O favorito é que não deveria ter nenhum amigo. Minha amiga poderosa riu, passou o cigarro que sempre filava – serrar, amigo, aqui se fala serrar, dizia-me, divertida. Liguei o desconfiômetro, foquei na futilidade das maquinações humanas em proveito próprio e percebi como é fácil ser amigo de alguém no auge do seu triunfo. O medo de criticar um vitorioso tirou de cena o princípio de que “a expressão que fere é a certa”. O País pisa em ovos. Todos recuam diante de um césar. Eles inverteram a lógica da política, insultam, quando deveriam estar ali para serem insultados. Os dois decidiram andar com a cabeça virada para trás. Vêm melhor os ressentidos e a sombria arrogância dos rostos apressados, assentados nas almofadas de seda da política. Podem até ter virtudes, mas nenhum dos dois tem fronteira.

E vi os modos primorosos se anteciparem, diplomatas, artistas, intelectuais e religiosos, bem antes do rico pidão e do povão oferecido. Os eleitores, ah, os eleitores, esqueça, são o truque de tudo, a sombra na prosperidade dos maus que incomodava o rei Davi.

Ela gostava quando eu dizia que a política é paixão doentia, violenta, que toma a forma humana para agir usando a bandeira dos anjos. Somos o povão, prometia que seria diferente. Exultava quando lhe dizia que os que apoiam por lascívia não devem ser considerados “eu mesmo”. Sentenciosa e ciumenta, usava a deixa e exigia que com essas ideias normais deveríamos voltar mais cedo para casa para dar espaço a outros. Tinha uma harmonia de temperamento com ela, trocávamos ideias sobre os países do mundo, mas ficava com o pé atrás com a turma da carona do avião presidencial, desenvolta como se estivesse numa companhia aérea particular. Ela não teve tempo de ver o outro igual na direita, o mesmo método, provocador, intimidando os inocentes.

Ridículo nacional é o Brasil não conseguir modular a forma como age em episódios corriqueiros de falta de cultura, impostos ao povo por gente sem grandeza. O que falta ao País não é ousadia, é sobriedade. Nem da cela ele passa o bastão, pois é mesmo o dono de tudo; mesmo na maca, ele aponta a arma para a barriga aberta como se fosse um bisturi.

Ridículo transnacional é a indolente diplomacia que não consegue dividir suas inquietações com critério e se torna presa fácil do pessoal do manifesto, propagadores de utopias de encomenda. Quantos assinam tudo para fugir ao esquecimento? Uns adoram se dizer da ONU, caçadores de curiosidades, cheios de fórmulas e crachás, peritos-parte. Consideram o mundo político da periferia esgoto dos vizinhos, enquanto colecionam nas suas casas figurinhas de gente falada. Parcos em olhares e sinceridade, escrevem resolução como bula que indica leite Ninho para criança da época de Josué de Castro. 

Foi a amizade que virou sabedoria que fez do papagaio, que também fala línguas estranhas, embaixador além-mar. Se eles não defendem o Brasil como deviam, o general candidato se põe a falar sobre as presumíveis causas das inundações do Nilo. Mania antiga essa conversa estrangeira e uniformizada, de falar mal e ameaçar as instituições do Brasil.

A campanha avança, parem com tolice. Os moderados se aproximem, não se deixem atacar de flanco, pois o veneno que se instalou pela controvérsia entre o certo e o errado demorou um pouco a produzir seu efeito. Melhor sair do círculo das grandes minorias, parar de pedir autógrafo, pois se é uma tolice falar mal do País, são duas votar em seus propagadores.

Poucos percebem que a multidão de negócios que o poder propicia é glória de nada se não pode ser oferecido, limpo, a quem se ama. Porque no fundo ninguém se absolve em seu foro íntimo se souber que sua glória é condenável. Para quem não sabe o que é a solidão e nunca parou para pensar na brevidade da vida, a popularidade até parece felicidade. Nenhum prazer positivo o poder proporciona a quem tem o inexorável desejo de subir e sufocar os outros. 

Ela se foi preocupada quando eu disse que ele, senhor de tudo, começava a apertar o botão contra si mesmo e já era juiz, promotor, réu e prisão de sua própria causa. Nunca mais a vi, nem disse a ela o que acontece com quem ama o engano: para quem nada encontra dentro de si, tudo é pretexto para que a excitação anormal esconda a prostração civil. Vulcão extinto, na cadeia ou no hospital, só se percebe assim quando a alma do poder que o motiva se revela indiferente à alma verdadeiramente humana.

*SOCIÓLOGO, É COPRESIDENTE DO CONSELHO DE ECONOMIA, SOCIOLOGIA E POLÍTICA DA FECOMERCIO-SP. E-MAIL: 

CONTATO@PAULODELGADO.COM.BR

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