X-tudo ambiental

Passadas duas décadas desde que se realizou a Rio-92, a Organização das Nações Unidas (ONU) resolveu organizar no Brasil uma nova conferência mundial. Concebida para avaliar o desenvolvimento sustentável, a Rio+20 ameaça ser um fracasso. Sua complexa agenda virou uma torre de Babel.

Xico Graziano, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2012 | 03h06

A primeira conferência mundial sobre meio ambiente foi realizada em 1972 na capital sueca, a cidade de Estocolmo. Lá nasceu o importante Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Começavam a ser conhecidos, cientificamente, os limites da Terra para a explosão populacional humana. Consequências ecológicas do crescimento econômico.

Importante relatório da ONU divulgado 15 anos depois, intitulado Nosso Futuro Comum, definiu as bases do conceito que virou mantra na atualidade: o desenvolvimento sustentável. Derivada da noção pioneira de "ecodesenvolvimento", proposta pelo economista polonês naturalizado francês Ignacy Sachs, a expressão propunha conciliar a economia com a ecologia. Mais tarde, na Cúpula da Terra (nome original da Rio-92), ampliou-se a compreensão sobre o tema, consagrando o famoso tripé da sustentabilidade: ecologicamente equilibrada, socialmente justa e economicamente viável.

Ao se incorporar à temática do desenvolvimento econômico, a causa do ambientalismo, antes restrita aos idealistas e aos visionários, ganhou importância. A sociedade global mudava a compreensão sobre o seu devenir. O crescimento predatório, que emite notas promissórias contra o futuro, perdeu cartaz, abrindo espaço para o surgimento da "economia verde", novo paradigma da civilização.

Em tese, tudo resolvido; na prática, imensas dificuldades. As nações jamais consolidaram passos subsequentes, necessários para obter governança global sobre o meio ambiente. As empresas, por seu lado, perderam tempo tratando a sustentabilidade apenas como uma jogada de marketing, pouco modificando os processos tecnológicos de produção. Entre as pessoas, a conscientização ecológica jamais ultrapassou as elites da sociedade. Em consequência, anda atrasado o enfrentamento consistente da crise ambiental.

Falta também clareza sobre a ideia central. Desde que se formulou o conceito de desenvolvimento sustentável, suas três dimensões - ambiental, social e econômica - disputam espaço político em sua agenda. Se, num primeiro momento, a luta ambiental se robusteceu ao ser incorporada aos processos decisórios da economia, aos poucos o ambientalismo passou a dividir o seu ativismo com grupos centrados nas desigualdades sociais. Uma sociedade miserável, afinal, não pode ser considerada sustentável.

Especialmente nos países emergentes, como o Brasil, os dilemas elementares do crescimento - emprego, moradia, energia, transportes - exigem obras que pressionam fortemente as variáveis ambientais. Nesse sentido, o preservacionismo radical, coerente nos países ricos, por aqui soa como elitista. Por isso a ideia de sustentabilidade, mais ampla, ganhou espaço, forçando o ambientalismo a ser realista. Mais do que eloquentes palavras, ações concretas.

Em outra linha, certas organizações fizeram da sustentabilidade uma estratégia de combate à exclusão humana, fornecendo uma grife aos movimentos ligados à erradicação da miséria e à justiça social. Estes, agora, pegaram carona nos preparativos da Rio+20 e praticamente dominaram a mídia sobre a reunião. Negros, feministas, sem-terra, índios, gays, causas humanitárias variadas imiscuíram-se com o ambientalismo, resultando boa confusão, teórica e política.

Resultado: a Rio+20 perdeu seu foco original, ligado à crise ecológica da civilização. Assim argumentam os cientistas, militantes da causa ambiental, laureados com o prêmio Planeta Azul, uma espécie de Oscar da sustentabilidade. O físico José Goldemberg é um dos que lideram a grita contra essa deformação nos debates pré-conferência, marcada para início de junho. Rubens Ricupero, diplomata cuja ação foi decisiva para o sucesso da conferência de 20 anos atrás, esclarece: "Se a questão ambiental não for encaminhada de maneira satisfatória, se o clima aquecer demais, não teremos nem social nem econômico (...), virá o colapso total".

Para piorar o quadro, entidades (que se julgam) esquerdistas passaram a contestar o tema da economia verde, proposto originalmente pela ONU, argumentando que esverdear os processos produtivos interessa apenas ao capitalismo. Para libertar os povos oprimidos, defendem, será necessária uma nova e ampla "revolução", que, obviamente, ninguém sabe definir qual nem como. Nem onde.

E assim nos aproximamos da Rio+20. Nesse contexto, provavelmente nada de importante nela se decidirá. Uma avaliação séria, se viesse a ser realizada, mostraria que, a despeito de boas ações aqui e ali, a civilização continua caminhando para o colapso. Inexiste uma força coordenadora, decisória, que enquadre a sociedade global na agenda futurista. Essa governança, que poderia ser o grande assunto do encontro no Rio de Janeiro, será provavelmente substituída pelas resoluções de sempre, genéricas, que empurram o problema com a barriga.

A grande conferência da ONU deve configurar, infelizmente, apenas uma grande festa ideológica, cujo brilho até poderá ajudar no avanço da consciência ecológica mundial, mas não deixará marca registrada. Haverá uma mistureba semelhante ao recheio daqueles sanduíches do tipo x-tudo: uma fatia da diplomacia internacional, uma rodela de terceiro-mundismo clássico, pitadas da Via Campesina, pedacinhos de ambientalismo com molho oriundo dos povos oprimidos, um caroço do empresariado inteligente amolecido pelas entidades científicas, tempero blá-blá-blá à vontade.

Fica delicioso, enche a barriga, mas não guarda o gosto de nada.

 

*Agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xicograziano@terra.com.br

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.