Zoneamento às pressas

Mais uma vez a pressa do prefeito Fernando Haddad, sempre de olho no possível ganho eleitoral de suas iniciativas, pode acarretar sérios prejuízos à cidade. Foi e está sendo assim com as faixas exclusivas para ônibus e as ciclovias, implantadas improvisadamente, sem estudos técnicos que atestem se elas são realmente úteis e, em caso positivo, na medida suficiente para justificar seu impacto sobre o sistema viário. O mesmo ocorre agora com o projeto da nova Lei do Zoneamento, que se quer aprovar às carreiras, de olho na eleição municipal.

O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2015 | 02h55

Os paulistanos afetados pelas mudanças propostas no zoneamento fazem o que podem para apresentar seus pontos de vista e defender legitimamente seus interesses. Mas sua capacidade de atingir esse objetivo, convencendo os vereadores, é limitada pelo pouco tempo de que dispõem para isso – tendo em vista a complexidade da matéria –, desde que ela foi colocada em discussão em outubro do ano passado. Pelo menos 25 grupos de moradores de regiões que sofrerão mudanças importantes, a maioria membros de associações de bairros, além de participar de audiências públicas na Câmara, resolveram promover manifestações, para conquistar o apoio da opinião pública.

A lista do que consideram equivocado no projeto inclui, entre outros itens, a criação de corredores comerciais em bairros residenciais e a liberação da construção de torres sem limite de altura em ruas estreitas, que alteram profundamente suas características e podem prejudicar seus moradores. O que inquieta essa parcela da população é que ela nem ao menos sabe o exato alcance das medidas propostas.

O presidente da Associação AME Jardins, João Maradei, resume bem esse aspecto da questão: “Não sabemos até agora o que será permitido nas zonas de comércio. Não basta apresentar as exceções”. O grande temor dos moradores é que essa falta de clareza permita que bares, restaurantes, supermercados e até mesmo casas noturnas se instalem em vias como a Avenida Europa e a Alameda Gabriel Monteiro da Silva, nos Jardins, que são lindeiras de ruas estritamente residenciais.

Associações do Alto de Pinheiros, Morumbi, Brooklin Velho, Alto da Boa Vista e Planalto Paulista pensam da mesma forma. Alguns, como Nancy Cardia, da associação que reúne moradores do Alto da Boa Vista, parecem já não ter muita esperança de conseguir a anulação dos corredores comerciais e querem apenas evitar o pior: “O ideal seria a retirada das Zonas de Corredor (ZCor), mas, já que o governo não aceita fazer isso, pedimos que ao menos sejam limitadas as atividades permitidas (nelas) para reduzir o impacto”.

A própria Associação Comercial de São Paulo, diretamente interessada na criação das ZCor, defende a clara definição do que poderá ser explorado nelas. “Isso facilitaria a convivência com os moradores. Nossa intenção não é degradar os bairros”, diz seu vice-presidente, Antônio Carlos Pela. Mas o relator do projeto, vereador Paulo Frange (PTB), rejeita fazer constar dele uma lista detalhada dessas atividades. E o prefeito Fernando Haddad finge que não tem mais nada a ver com a questão, limitando-se a dizer que 60% das reivindicações da população foram aproveitadas, como se essa fosse uma questão apenas aritmética. Se coisas importantes, como tudo indica, estiverem nos 40% restantes, que se danem os afetados por elas.

Uma das principais razões pelas quais tudo isso está acontecendo é apontada por Sergio Reze, membro do Conselho Municipal de Política Urbana, em artigo publicado ontem no Estado: a impossibilidade, por causa do pouco tempo que o poder público lhe oferece para isso, de efetiva participação da população em assuntos importantes como esse. Cita ele o exemplo de várias cidades dos Estados Unidos nas quais o zoneamento foi discutido com a população de três a cinco anos, ao contrário de São Paulo, apenas um ano e meio. As cidades sofrem mudanças e precisam, sim, adaptar-se a elas. Mas com o indispensável cuidado.

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