1,2 milhão de refugiados

Putin desencadeia crise de refugiados que a Europa não esperava rever jamais. A resposta foi rápida e assertiva

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 03h05

As consequências do assalto russo à Ucrânia são sem precedentes em muitos sentidos. A mais significativa guerra em solo europeu em uma geração não só exumou a guerra fria no século 21 e enterrou a ordem europeia pós-2.ª Guerra, como desencadeou um desastre humanitário que a Europa não esperava rever jamais. Em poucos dias, fugiu do país 1,2 milhão de ucranianos, número equivalente ao da onda de refugiados vindos do Oriente Médio entre 2014 e 2016. À medida que a brutalidade de Vladimir Putin escala, estima-se que outros 4 milhões podem fugir nos próximos meses.

Para Putin, que não tem escrúpulos em mergulhar sua própria população na desgraça em prol de suas ambições imperiais, catástrofes humanitárias, longe de ser uma colateralidade indesejada, são parte de suas táticas para desestabilizar adversários e aterrorizar inimigos. Os chechenos e sírios são testemunhas. Em retrospectiva, é evidente que a crise migratória fabricada recentemente nas fronteiras da Polônia e Lituânia por seu fantoche na Bielorússia, o presidente Alexander Lukashenko, foi uma fase preparatória da invasão.

O Plano A de Putin combinava dois pilares: colocar rapidamente as Forças Armadas ucranianas de joelhos, para decapitar o governo, e produzir o mínimo de mortes civis, para evitar desagravos com a população russa. Por uma combinação de inépcia das forças russas e habilidade das ucranianas, esse plano falhou. Agora, o segundo pilar deve ser sacrificado para manter o primeiro, e isso pode significar um banho de sangue entre os civis ucranianos. 

As insinuações sobre o eventual uso de armas nucleares mostram o quanto Putin foi frustrado e até onde está disposto a ir. O ataque à maior usina nuclear ucraniana poderia ter detonado uma hecatombe 10 vezes pior que a de Chernobyl. A intensificação dos bombardeios a cidades sinaliza que a fase do terror começou.

Dos quatro principais crimes sob a jurisdição do Tribunal Penal Internacional, genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes de agressão, há fartas evidências para os últimos três.

Assim como a reação política, a resposta humanitária da Europa foi rápida e assertiva. Na consciência das nações europeias pesará eternamente a obliteração das rotas de fuga dos judeus durante o Holocausto. Na crise do Oriente Médio, a Europa ergueu uma fortaleza contra os refugiados. Nada disso, felizmente, se verifica agora.

Todos os ucranianos, a maioria mulheres e crianças, estão sendo bem recebidos, com esforços heroicos de organizações civis e voluntários, sobretudo na Polônia. De lá estão sendo acomodados em outros países. A União Europeia estendeu aos ucranianos a possibilidade de residência por três anos com plenos direitos.

Por outro lado, há relatos preocupantes de discriminação das autoridades ucranianas contra imigrantes africanos e asiáticos que buscam fugir do país. Enquanto os ucranianos aguardam que a Rússia seja obrigada a compensá-los por seus crimes, o mínimo que se espera é que retribuam a generosidade dos outros países para com os refugiados ucranianos, dando aos estrangeiros em seu país, seja qual for a cor da pele, um tratamento civilizado.

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