146 anos de coerência

A coerência do jornal confere um profundo sentido à sua história, aos 146 anos que hoje são celebrados. Mas é também o que dá sentido ao presente e ao futuro do 'Estado'

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 03h00

O jornal O Estado de S. Paulo completa hoje 146 anos. Desde sua primeira edição, em 4 de janeiro de 1875, o jornal foi testemunha de profundas mudanças sociais e econômicas, guerras mundiais, revoluções e variadas crises. Ao longo desse tempo, o próprio Estado passou – e continua a passar – por diversas mudanças de formato e de plataforma, acompanhando não apenas os avanços tecnológicos de cada época, mas os hábitos, as preferências e as necessidades de seus leitores.

Ao olhar as muitas mudanças ocorridas no mundo e no Brasil desde aquele 4 de janeiro de 1875, é motivo de orgulho constatar a continuidade do Estado ao longo de todo esse tempo. Esse orgulho reflete, e não poderia ser de outra forma, um profundo senso de comunhão com as gerações passadas que conduziram este jornal em circunstâncias muitas vezes difíceis, às vezes claramente heroicas.

Mas na história deste jornal o que mais se destaca não é tanto a passagem do tempo, tampouco as adversidades superadas. O que salta aos olhos é a defesa intransigente, desde sua fundação – quando se chamava A Província de São Paulo –, dos valores e princípios republicanos que são cultivados até hoje e que nos apontam os rumos do porvir. Fundado para defender a abolição da escravatura e a proclamação da República, este jornal nunca aceitou promover ou manter-se omisso diante de ideias ou práticas liberticidas, por maiores que fossem as pressões, por mais que determinados setores da opinião pública exigissem, em alguma circunstância, transigir com o arbítrio.

O compromisso do Estado com os mesmos valores pode ser observado ao longo de toda sua história. Por exemplo, este jornal não pactuou em 1968 com o Ato Institucional n.º 5 que, revogando direitos e garantias fundamentais, representou o mais forte endurecimento da ditadura militar. A recusa a fazer autocensura, prática corrente em outros periódicos, foi importante ato de resistência contra um regime que não admitia vozes contrárias.

Em razão da história do jornal, o leitor sabe o que irá encontrar no Estado – seja lendo no papel ou na tela do computador, do tablet ou do celular, no e-mail por meio de uma newsletter ou num dos aplicativos do jornal, ou até mesmo ouvindo um podcast. Neste jornal, a liberdade não é mero slogan, tampouco uma bandeira que se levanta apenas nas épocas em que os ventos lhe são propícios. Na edição inaugural, em 4 de janeiro de 1875, o jornal se comprometeu a dizer o que precisava ser dito e a defender o que acreditava ser o certo. E é o que tem feito até hoje – e continuará fazendo.

Aquela edição explicava que a prometida imparcialidade não seria “a imparcialidade do silêncio”. Ciente de seu papel, o jornal teria sempre a “independência de uma opinião séria” diante do governo e da sociedade, razão pela qual suas páginas são mais do que um testemunho preciso dos principais acontecimentos – são a consciência crítica de seu tempo.

O compromisso fundacional do jornal requer da corporação que mantém intactos seus valores há 146 anos visceral honestidade de propósitos. A defesa dos valores republicanos exige não apenas autonomia em relação aos governantes e poderosos de cada época, mas também independência em relação aos diversos modismos, por mais aplausos que recebam em determinado momento. Só assim o jornal tem podido fazer-se ouvir e respeitar quando se manifesta contra o populismo, a demagogia e os extremismos.

Se a coerência na defesa intransigente dos mesmos valores ao longo do tempo causa admiração, deve-se reconhecer que, em vários momentos, ela é ocasião de incompreensões, por parte de variados grupos ideológicos. Não há dúvida de que para o jornal seria muito mais fácil aderir à posição majoritária do momento, em vez de buscar ser a consciência crítica de seu tempo. Mas isso significaria abdicar de sua missão fundacional, trair a memória e a herança dos que nos precederam – e isso simplesmente não ocorrerá.

A coerência do jornal confere um profundo sentido à sua história, aos 146 anos que hoje são celebrados. Mas essa coerência é também o que dá sentido ao presente e ao futuro do Estado. Todas suas inovações estão voltadas para isto: a fazer todos os dias um jornalismo sério e independente, capaz de contribuir para a construção de um país livre e justo, dentro do mais absoluto respeito ao Estado Democrático de Direito.

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