50 anos de rede digital

Maioria dos especialistas acredita que a digitalização deve transformar a existência humana para melhor

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 03h00

Meio século após a primeira conexão de computador a computador, ou seja, do nascimento da rede digital, que se acaba de comemorar, a maioria dos especialistas acredita que nos próximos 50 anos a digitalização deve transformar a existência humana para melhor. É o que constata pesquisa elaborada pelo Pew Research Center, após ouvir 530 pioneiros da tecnologia e líderes políticos e empresariais do mundo inteiro. Eles alertam, no entanto, que um futuro próspero depende de reformas que viabilizem melhor cooperação, segurança, direitos fundamentais e equidade econômica.

Cerca de 72% disseram que as mudanças seriam para melhor; 25%, para pior; e 3% não acreditam em mudanças significativas. Quase todos advertiram para riscos de abusos na vigilância e uso de dados por empresas e governos, segurança porosa para sistemas conectados digitalmente e um crescimento da desigualdade econômica.

Para os especialistas, a vida digital continuará a ser o que as pessoas fazem dela. A responsabilidade sobre o futuro, para o bem ou para o mal, permanece em mãos humanas. Em 50 anos, a rede será tão ubíqua quanto o oxigênio. Por isso, a era de uma internet sem regulação deve ser superada por marcos que protejam o bem público.

Entre as perspectivas mais esperançosas está a longevidade humana, proporcionada por avanços tecnológicos que seguirão borrando as linhas que separam o ser humano da máquina. Em parte, esse bem-estar virá pela automação, que liberará os humanos de trabalhos mecânicos, repetitivos e insalubres, deixando-lhes mais tempo para o ócio. Além disso, a vida digital será cada vez mais customizada para cada indivíduo e suas necessidades.

Um mundo plenamente conectado, com as distâncias do espaço e das línguas virtualmente eliminadas, ampliará as oportunidades de cooperação e desenvolvimento comunitário, inclusive, se necessário, provocando rupturas em estruturas de poder econômicas e políticas, em prol da maior independência dos indivíduos e da redução da desigualdade entre eles.

Mas sobre tudo isso pesa um portentoso “se”. Se a sociedade global for capaz de tomar decisões responsáveis na regulamentação da rede, a comunicação digital naturalmente a fortalecerá enquanto comunidade. Mas, do contrário, as possibilidades de conflito e dissensão são perturbadoras.

A má distribuição dos benefícios advindos da expansão digital na educação, saúde e economia pode aumentar o fosso entre a minoria dos que têm muito e a maioria dos que têm pouco ou nada. Uma elite cada vez mais equipada e distanciada pode utilizar a internet para vigiar e manipular massas distraídas e complacentes – e atomizadas, porque há também o risco, por mais paradoxal que pareça, de uma maior conectividade provocar um maior isolamento dos indivíduos, incapazes de estabelecer e sustentar relacionamentos humanos diretos, com suas sinuosidades e asperezas, sem mediações ou anteparos. Tanto mais que, no cenário mais tenebroso esboçado na pesquisa, “a privacidade pessoal será um conceito arcaico e ultrapassado, já que os humanos trocam de bom grado a discrição por melhores cuidados médicos, oportunidades de entretenimento e promessas de segurança”. No limite, políticas públicas podem limitar, mas não impedir a vulnerabilidade da vida íntima e privada. Trata-se de um desafio muito mais moral do que político que se impõe a cada indivíduo.

Um último alerta geral é que todas essas previsões sobre o mundo virtual são inúteis sem medidas drásticas para reduzir a degradação ambiental, ou seja, a destruição do mundo real.

Em resumo, as tendências são, em geral, positivas, mas as possibilidades estão abertas. A transformação, contudo, não virá nem dos otimistas – para quem tudo está bom e vai melhorar – nem dos pessimistas – para quem tudo está mal e vai piorar –, porque nem os primeiros nem os últimos têm disposição para mudar um futuro, a seu ver, imutável, e sim das pessoas e instituições responsáveis, que sabem que o melhor ou o pior depende da sua parcela de esforço.

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