A agonia da indústria

Dedicada ao atraso, gestão bolsonariana acelera o retrocesso histórico e a desindustrlalização do Brasil

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2021 | 03h00

A produção industrial caiu 0,6% em outubro, acumulou cinco quedas seguidas e ficou 4,1% abaixo do patamar de fevereiro de 2020, último mês antes do choque inicial da pandemia. Com resultados negativos em oito de dez meses, neste ano, a indústria se manteve como o setor menos dinâmico de uma economia já enfraquecida. O desempenho industrial de outubro foi divulgado um dia depois do desastroso balanço geral do terceiro trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,1% e o País ingressou em uma recessão técnica. O fiasco econômico prosseguiu, portanto, no início do trimestre final de 2021. Mas o Brasil está decolando, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, sem dar importância, aparentemente, a duas quedas trimestrais do PIB. Em contrapartida, os fatos parecem dar pouca importância às fantasias ministeriais.

O volume produzido encolheu, em outubro, em 19 dos 26 segmentos cobertos pela pesquisa industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A escassez de insumos, consequência dos desarranjos causados pela pandemia, explica apenas em parte, portanto, o desempenho da indústria. O setor industrial brasileiro já estava enfraquecido antes da covid-19 e assim continua. A produção acumulada no ano foi 5,7% superior à de igual período de 2020, mas isso decorre principalmente da base de comparação muito baixa. Ainda assim, o resultado de outubro foi 7,8% inferior ao de um ano antes e ficou 20,2% abaixo do pico atingido em maio de 2011.

Parte dos problemas da indústria tem origem externa. O desarranjo das cadeias produtivas é fenômeno global e afeta o suprimento de insumos e os custos de produção. Mas fatores internos também são importantes e estão relacionados a ações e omissões do poder federal. O desemprego de 12,6% da força de trabalho, a baixa remuneração da maior parte dos trabalhadores, a supervalorização do dólar e a inflação superior a 10% em 12 meses são desajustes made in Brazil. Juros altos também atrapalham a atividade, mas são o principal instrumento do Banco Central contra o aumento de preços.

A fraqueza da indústria é problema tanto de curto quanto de longo prazo. A curto prazo, o baixo dinamismo do setor dificulta o crescimento econômico e a criação de empregos, principalmente de empregos formais e de qualidade acima da média. Na perspectiva mais ampla, a debilidade industrial empobrece as perspectivas da economia brasileira e, mais que isso, pode resultar num retrocesso histórico. Depois de um século de notáveis conquistas, o Brasil vem-se caracterizando, há cerca de uma década, como um país em desindustrialização. Não seria excessivo falar de uma reversão do desenvolvimento. Essa reversão se acentuou a partir de 2019 com as atitudes anticientíficas do presidente da República, o desmonte das instituições e das políticas educacionais e, de modo mais amplo, com a depreciação e a quase criminalização da cultura. O retrocesso antes atribuível a erros de governo é hoje intensificado pela valorização deliberada do atraso.

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