A agropecuária na década de 20

País tem oportunidade de alavancar a economia nacional e cumprir sua dupla vocação globa

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2020 | 03h00

Como em outros setores econômicos, o impacto da pandemia sobre a agropecuária foi sem precedentes, gerando gargalos na produção, processamento, transporte e logística, assim como mudanças na demanda por comida e serviços alimentares. A longo prazo, contudo, os efeitos são menos severos e mais previsíveis do que na maioria dos outros setores. Mas isso não significa que o agronegócio possa se acomodar. Ao contrário: é preciso aproveitar esta relativa vantagem para “reconstruir melhor” o setor, em especial no que diz respeito aos desafios da segurança alimentar e mudanças climáticas.

De acordo com o Panorama Agrícola 2020-2029 produzido pela Organização para Alimentação e Agricultura da ONU (FAO) e pela OCDE, na próxima década a relativa importância do alimento e do biocombustível não sofrerá mudanças significativas. Apesar das variações nos hábitos de consumo, a expansão populacional global continuará a impulsionar o crescimento bruto do setor. Mas o crescimento da produção superará o da demanda, o que implicará um declínio nos preços para a maioria das commodities. Já a curto prazo, as respostas à covid-19 podem levar a oscilações drásticas, especialmente por causa das quedas expressivas no poder de compra dos países de baixa renda.

O setor precisa ainda se preparar para outras incertezas. Do ponto de vista da oferta, elas incluem pestes como a febre suína ou invasões de gafanhotos, crescente resistência a substâncias antimicrobiais, regulações a novas técnicas de reprodução e respostas a eventos climáticos extremos. Do ponto de vista da demanda, preveem-se mudanças nos hábitos alimentares, notadamente a redução do consumo de produtos animais. O aumento de receita nos países de renda média também deve levar a um aumento da demanda por produtos de maior valor e a um consequente declínio da proporção de produtos básicos na cesta de alimentos.

A redução das restrições comerciais e subsídios distorcivos, gerando mercados mais abertos, transparentes e competitivos, não é só uma questão de justiça econômica, mas também de justiça social. Segundo a FAO, nos últimos cinco anos o número de pessoas que passam fome no mundo aumentou em quase 60 milhões, chegando a 690 milhões em 2019. Com a covid-19, este contingente pode ser acrescido em 2020 por algo entre 80 milhões e 130 milhões de pessoas. “Um sistema de comércio internacional funcional e previsível pode ajudar a robustecer a segurança alimentar e permitir que os produtores dos países exportadores prosperem”, disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría. “A experiência mostra que restrições comerciais não são uma receita para a segurança alimentar.”

A redução destas barreiras e subsídios é uma agenda particularmente importante para o Brasil, onde os níveis deste tipo de medida são exemplarmente baixos.

Além do mercado de grãos e carnes, algumas das principais oportunidades para o País estão no setor de biocombustíveis. As condições climáticas desfavoráveis para a produção de cana-de-açúcar – base do etanol – na Índia devem levar o Brasil a recuperar a liderança. A depreciação do real, além de tornar os preços mais atrativos, ajudará a retomar os investimentos no setor. Em 2029, o Brasil deverá responder por 39% da produção global de cana. Em razão do programa RenovaBio, de 2018, os maiores crescimentos tanto na produção como no consumo de etanol virão do Brasil. Para criar a estrutura de incentivos, o RenovaBio está introduzindo um sistema de créditos de carbono comercializáveis que pode servir de modelo a outros setores.

Como disse o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, “precisamos de melhores políticas, mais inovação, mais investimentos e maior inclusividade para construir setores de agricultura e alimentação dinâmicos, produtivos e resilientes”. Cada um destes tópicos representa uma janela de oportunidades para o País. Combinados, eles não só podem alavancar a economia nacional, como ajudarão o Brasil a cumprir sua dupla vocação global: resguardar o maior bioma tropical do planeta e reduzir a fome no mundo.

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