A ameaça de greve do professorado

Categoria perde a oportunidade de dar uma lição de civilidade a seus alunos e à sociedade

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2021 | 03h30

A menos de três semanas do início das atividades escolares de 2021 e da retomada das aulas presenciais na rede pública de ensino, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) informou, em seu site, que recorrerá à Justiça e deflagrará uma greve caso a Secretaria Estadual da Educação contrate professores temporários. O início das aulas presenciais em todas as escolas estaduais está previsto para 1.º de fevereiro, com rodízio de alunos. 

A contratação de docentes temporários foi decidida pelo governo paulista com o objetivo de substituir os docentes efetivos que fazem parte da população de risco ou que apresentarem atestado médico justificando sua permanência em casa. Ao se opor a essa decisão, a Apeoesp voltou a mostrar que, entre o interesse público e seus interesses corporativos, não pensa duas vezes. Os estudantes da rede pública de ensino básico estão há um ano recebendo aulas só por meios virtuais. Segundo os pedagogos, as aulas remotas não têm a mesma qualidade dos cursos presenciais nesse ciclo de ensino, o que reduz os níveis de aprendizagem dos alunos. 

Além disso, os líderes sindicais do professorado também estão impondo outra exigência para voltar às salas de aula. Sob a alegação de que exercem uma atividade fundamental, querem que a categoria receba o mesmo tratamento dos profissionais do setor de saúde, sendo vacinada na primeira fase. Em princípio, o argumento é procedente, pois estão em risco aqueles que se expõem para trabalhar e também funcionários e alunos. 

Mas, dado o tamanho do primeiro lote de vacinas, o número de grupos prioritários que serão imunizados na primeira fase é pequeno. Segundo o plano anunciado pelo governo do Estado de São Paulo, nesta fase serão vacinados apenas os idosos e quilombolas, além dos trabalhadores da área de saúde. O plano prevê que os docentes da rede escolar de ensino médio serão imunizados na quarta fase da campanha de vacinação. Para afastar riscos de contaminação de professores e servidores, a Secretaria Estadual da Educação informou que dotou a rede escolar com equipamentos de proteção individual e material de higiene, reformou os banheiros de 4,6 mil escolas e adotará uma distância mínima entre alunos e professores.

Desse modo, ao exigir a vacinação, ameaçando cruzar os braços no início do calendário escolar e após um ano letivo perdido, os líderes sindicais do professorado não se comportam apenas como delegados de polícia, procuradores e magistrados, que invocaram os mais variados motivos para tentar furar a fila na campanha de vacinação. Acima de tudo, ao converter crianças e adolescentes em reféns de suas exigências, a corporação está negando às novas gerações a formação básica de que elas necessitam para se emancipar social, cultural e profissionalmente. E moralmente.

O nome disso é chantagem. E, se for efetivamente aplicada, o professorado da rede escolar pública paulista, cujos líderes sindicais sempre foram filiados a agremiações partidárias soi disant progressistas, estará sendo conivente com o aumento das disparidades socioeconômicas a médio e longo prazos, uma vez que os alunos do ensino fundamental e médio da rede pública ficarão sem condições de competir no mercado de trabalho com os estudantes oriundos da rede privada. Como lembram os economistas, por causa do aprofundamento das diferenças na qualidade de ensino entre as escolas privadas e as escolas estaduais causado pela eclosão da pandemia, a desigualdade de capital humano deverá crescer significativamente nas próximas gerações.

A luta por uma educação pública de qualidade e com equidade, com o objetivo de evitar o aumento das desigualdades durante o período de pandemia, implica, entre outros fatores, a valorização da carreira docente. Mas, num período de enormes dificuldades como o atual, ao se recusar a aceitar sua cota de sacrifícios e recorrer à greve para inviabilizar o início do ano letivo, o professorado perde a oportunidade de dar uma lição de civilidade aos seus alunos e à própria sociedade. 

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