A ameaça dos juros

Para frear a inflação, o BC promete novos e fortes apertos na política de crédito

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 03h00

Dinheiro curto, crédito caro e empenho total no combate à inflação, sem preocupação com o crescimento econômico, são promessas do Banco Central (BC) para os próximos meses, talvez para a maior parte de 2022. Pressionados por todos os lados – pelas cotações internacionais, pela seca, pelos problemas de suprimento, pelo dólar e pela irresponsabilidade do presidente da República –, os preços ao consumidor subiram 10% nos 12 meses até setembro, sem dar, até agora, sinal de arrefecimento. O recado é claro: o Comitê de Política Monetária (Copom) vai concentrar-se em sua missão principal, a defesa do poder de compra da moeda, pondo de lado, por algum tempo, o cuidado com o estímulo à atividade.

O recado essencial pode ser o mesmo, mas o tom da mensagem ficou mais dramático. Ao anunciar, na semana passada, o aumento dos juros básicos para 6,25%, o comitê indicou, como rumo, um avanço no “território contracionista”. Postada seis dias depois, na última terça-feira, a ata da reunião veio com acréscimo de um advérbio quase ameaçador. A ideia, segundo a ata, é levar o ajuste a um patamar “significativamente contracionista”, para conduzir a inflação às metas de 2022 e de 2023.

Pela última estimativa do mercado, os preços ao consumidor subirão 8,45% neste ano, passando longe da meta de 3,75%. A meta oficial para o próximo ano é de 3,5%, mas a alta de preços, pelas últimas previsões, deve superar 4%. As estimativas do BC também apontam inflação acima dos objetivos fixados pelas autoridades. Para 2023 o centro do alvo é de 3,25%.

Já há quem aposte em juros básicos de 9% em fevereiro. O número surgiu, nas avaliações do mercado, logo depois de conhecida a ata. Até o começo da semana, as projeções do mercado indicavam juros de 8,25% no fim de 2021 e de 8,5% no encerramento de 2023. Qualquer dessas estimativas aponta condições de crédito muito desfavoráveis. As condições já são ruins. Em agosto o total do crédito concedido foi 2% menor que em julho, refletindo principalmente a redução de 3,4% nos financiamentos a pessoas jurídicas.

Com o aperto da política monetária, os juros dos empréstimos negociados livremente, isto é, sem limitações legais, chegaram a 29,9%, superando amplamente a média, já muito alta, de 25,5% registrada em dezembro de 2020. Os novos dados do crédito foram divulgados na última segunda-feira pelo BC. Entre o fim do ano passado e agosto deste ano, os juros para o segmento corporativo subiram de 11,6% ao ano para 16,2%. O custo dos empréstimos às famílias passou de 37,2% para 40,9%, limitando severamente a expansão do consumo e agravando as condições dos consumidores já endividados.

Na contramão das avaliações do mercado, o Copom mantém tom otimista ao citar a recuperação econômica já observada e as perspectivas. O balanço do segundo trimestre e os últimos indicadores, segundo a ata, mostram evolução positiva, sem afetar o “cenário prospectivo” de “recuperação robusta” no segundo semestre. Parece um cenário estranho, quando se consideram os dados já conhecidos e as projeções divulgadas a cada semana.

O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre foi 0,1% menor que o do primeiro. Atualmente, a indústria de transformação, importante fonte de empregos formais, segue emperrada, embora o consumo tenha crescido em julho. Mesmo com alguma melhora no terceiro trimestre, o mercado de emprego deve ter continuado muito ruim – bem pior, certamente, que na maior parte dos países emergentes e avançados.

Além disso, as projeções de atividade têm piorado. O crescimento do PIB estimado para este ano caiu em poucas semanas de 5,3% para 5,04%, segundo a pesquisa Focus. Em um mês a expansão estimada para 2022 passou de 2% para 1,57%. Se o aperto monetário continuar e avançar em território “significativamente contracionista”, como antecipa o Copom, até o mísero avanço econômico estimado para 2022 poderá ser impossibilitado. Seguir nesse rumo será um teste de sangue-frio para os membros do Copom – e de resistência para os consumidores e empresários.

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