A análise do Enem feita pela USP

Pesquisa dá informações estatísticas decisivas para a formulação de novas políticas

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2021 | 03h00

Uma semana após o ministro da Educação, Milton Ribeiro, ter dito que “a universidade é para poucos” e que “as vedetes do futuro” serão as escolas técnicas, um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, divulgou importante pesquisa promovida com base em dados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). 

A primeira constatação dá a dimensão da falta de rumo do governo, uma vez que o orçamento previsto para aquilo que o titular do Ministério da Educação (MEC) considera prioritário vem sofrendo drásticos cortes orçamentários. Já a segunda constatação diz respeito a uma nova fonte de informações estatísticas para a formulação de políticas públicas. O estudo revela como as áreas educacionais que não foram afetadas pelos propósitos anti-iluministas do governo Bolsonaro são capazes de fornecer evidências científicas para fundamentar programas destinados a melhorar a qualidade do ensino. 

A pesquisa se concentrou no período 2012-2017. Apesar de mais de 5 milhões de pessoas terem participado do Enem em cada um dos anos analisados, os pesquisadores levaram em conta uma amostra anual de 1,3 milhão. Com auxílio de algoritmos que desenvolveram, eles calcularam as notas médias das provas de redação e de cada uma das áreas do conhecimento. Em seguida, dividiram os alunos em três grupos – os que tiveram baixo, médio e alto desempenho. Com base nesses dados, promoveram três tipos de análise. A primeira foi sobre o nível de aprendizagem demonstrado pelos alunos do ensino médio de cada uma das regiões do País. A segunda análise comparou o desempenho dos estudantes da rede pública com os das escolas particulares. A terceira foi voltada à compreensão do que ocorreu com os alunos com baixo desempenho. 

A surpresa dos pesquisadores se deu justamente quando investigaram a elevação da pontuação média do grupo de alta performance, especialmente no período entre 2014 e 2017. Foi detectado que, nos primeiros anos desse período, os estudantes das Regiões Sudeste e Centro-Oeste obtiveram as melhores pontuações. No entanto, a cada ano as pontuações dos estudantes com alto desempenho do Nordeste, região menos desenvolvida do que as outras duas, foram crescendo progressivamente. Com isso, em 2017 o Nordeste se tornou a segunda região com melhor desempenho educacional de todo o País nas provas do Enem, ultrapassando o Centro-Oeste.

“Isso indica que, provavelmente, quem administra as escolas públicas do Nordeste passou a investir mais na preparação para o Enem, adotando novos métodos que propiciaram resultados mais satisfatórios”, afirma o pesquisador Afonso Souza Lima. Por isso, agora é necessário fazer um levantamento mais profundo do que aconteceu no Nordeste, “para replicar as práticas de sucesso em outros locais”, diz ele.

Outra surpresa detectada pelos pesquisadores está relacionada à diminuição da participação, no Enem, dos estudantes com deficiência oriundos da rede pública e ao aumento de alunos oriundos da rede privada. “Isso pode indicar que a escola particular está adotando alguma estratégia muito boa ou que a escola pública está piorando. Mas o fato é que as escolas privadas estão ficando mais atrativas para esses alunos”, aponta Robson Cordeiro, professor do ICMC/USP. Essa é uma informação importante, uma vez que, segundo a Unesco, 24% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência.

Considerado uma fonte fidedigna de dados estatísticos para nortear o desenvolvimento de programas educacionais do ensino médio conforme as especificidades de cada região do País, esse estudo já propiciou um artigo publicado na revista científica Journal of Information and Data Management. Infelizmente, em vez de levar em consideração trabalhos como esse, mobilizando a partir dele gestores e instituições com o objetivo de criar uma educação pública de qualidade e com equidade, nos últimos anos o MEC vem perdendo tempo com questões menores e demagógicas, como homeschooling e a proposta da “escola sem partido”. 

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