A aposta em juros mais altos

Risco de estouro da inflação reforça a expectativa de maior aperto monetário

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 03h00

Enquanto a inflação complica o dia a dia das famílias, a alta de juros, empregada como terapia anti-inflacionária, mexe com o mercado financeiro e com o câmbio. O dólar terminou a terça-feira cotado a R$ 4,97, o menor valor desde o dia 10 de junho do ano passado. A expectativa de maior aperto monetário, com elevação mais veloz dos juros básicos, tem sido um dos fatores de contenção cambial. A política monetária americana, sem perspectiva de taxas mais altas até 2023, também tem contribuído para maior oferta de dólares em outros mercados, incluído o brasileiro. As apostas em aperto maior no Brasil foram reforçadas pela ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC), publicada nesta semana.

A taxa básica de juros, a Selic, será elevada de 4,25% para 5,25% ao ano na próxima deliberação do Copom, em agosto, segundo previsão disseminada no mercado financeiro. Na ata, no entanto, a indicação mais explícita é de um novo aumento de 0,75 ponto porcentual, idêntico aos dois anteriores. Mas essa indicação, como sempre, é condicional: a decisão efetiva dependerá das informações coletadas até a nova reunião. Mas a porta para um ajuste mais forte parece mais que entreaberta, desde a divulgação da ata.

Para começar, as projeções de inflação citadas no informe do BC estouram o limite de tolerância fixado para o ano, de 5,25%. No cenário básico, o aumento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará “em torno” de 5,8%, com juros básicos elevados até 6,25%. Esses números já constituem uma boa razão para apostar numa Selic na altura de 6,5% – com aceleração, portanto, do ajuste monetário previsto até a última sessão do Copom.

Em segundo lugar, a “persistência” da pressão inflacionária tem sido maior que a prevista, de acordo com o informe. Esse reconhecimento é um forte sinal de maior preocupação quanto à evolução provável dos preços. Depois, o Comitê insiste na indicação de um “risco fiscal elevado”. A continuidade desse risco pode empurrar a inflação para níveis mais altos no “horizonte relevante” para a política monetária.

O alerta vale pelo menos para 2021 e 2022. O risco fiscal é explicitamente associado ao prolongamento das políticas “de resposta à pandemia”. A linguagem seria mais convincente, e menos diplomática, se o perigo fosse claramente associado às pressões do presidente Jair Bolsonaro por ações de apoio à reeleição, como gastos sociais maiores e tributação mais branda. Mudanças como essas podem ser defensáveis, mas só deveriam vir no bojo de um planejamento fiscal efetivo e com finalidades mais amplas que os objetivos eleitorais.

A insegurança fiscal, segundo o Copom, gera uma “assimetria no balanço de riscos”. Sem o jargão profissional, o recado é o seguinte: o risco de uma inflação acima das atuais projeções supera o de uma evolução mais moderada. Com as incertezas quanto à condução das contas públicas, a inflação poderá revelar-se pior do que hoje se espera. Além disso, se crescerem os temores de maior desarranjo nas contas públicas, o próprio comportamento dos agentes de mercado poderá afetar a formação dos preços.

Essa insegurança, gerada pelo governo e especialmente pelas imprudências do presidente Jair Bolsonaro, já produziu estragos notáveis, como a forte valorização do dólar. Durante um ano a moeda americana, com cotações frequentemente acima de R$ 5,40, afetou perigosamente os preços. Um efeito secundário foi a decisão do Copom de elevar os juros para esfriar a demanda e conter a inflação. Apesar disso, as pressões inflacionárias persistiram, o IPCA subiu mais de 8% em 12 meses e por isso se espera, agora, um aperto monetário mais forte. Juros mais altos tendem a atrapalhar a recuperação da economia e, além disso, complicam a situação do Tesouro, encarecendo a dívida pública e tornando mais custosa a sua rolagem. A melhora desse quadro depende crucialmente de mais cuidado e mais previsibilidade nas ações de governo. Falta o presidente Bolsonaro assumir sua responsabilidade.

 

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