A aposta no consumo

As famílias estão mais animadas para consumir e essa é a melhor novidade. Uma recuperação poderá dar um empuxo aos negócios

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 03h00

As famílias estão mais animadas para consumir, segundo a Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias da Confederação Nacional do Comércio (CNC), e essa é a melhor novidade, neste momento, no quadro econômico. O indicador de intenção de consumo atingiu 99,3 pontos em fevereiro, o nível mais alto desde abril de 2015, quando a economia começava a afundar na recessão. Depois de uma queda no fim do ano, quando caíram vários dos principais indicadores econômicos, o consumo pode estar em recuperação, de acordo com o relatório da confederação, divulgado ontem. Mas é preciso torcer por uma recuperação realmente forte: só isso, a julgar pelo andamento da política econômica, poderá dar um empuxo mais sensível aos negócios e, de modo especial, à produção de bens e serviços. No ano passado, o consumo cresceu 1,8%, mas esse movimento foi insuficiente para dinamizar a indústria de transformação. A fabricação de bens de consumo aumentou apenas 1,1% em 2019, enquanto a de bens intermediários diminuiu 2,2% e a de bens de capital caiu 0,4%.

Renda atual, acesso ao crédito e nível atual de consumo são alguns dos itens positivos apontados pelos consumidores na pesquisa. A satisfação indicada em relação aos três itens foi maior que a do mês anterior e a de fevereiro do ano passado. As avaliações de emprego atual e perspectiva profissional foram melhores que as de janeiro, mas inferiores às de um ano antes.

O indicador de intenção de consumo foi obtido a partir da combinação de vários indicadores parciais. O índice de intenção de consumo, de 99,3 pontos, 1,2% superior ao de janeiro, foi alcançado depois de duas quedas mensais. O índice mais amplo, de perspectiva de consumo, chegou a 100,3 pontos, superando ligeiramente a linha divisória (100) entre os territórios positivo e negativo.

Vendas no varejo, produção industrial e oferta de serviços marcaram o mês de dezembro com resultados negativos. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), apelidado de prévia do Produto Interno Bruto (PIB), também recuou no fim do ano. Analistas do mercado reagiram a essas notícias diminuindo suas projeções de crescimento econômico para 2020.

Em uma semana o crescimento do PIB estimado para este ano passou de 2,30% para 2,23%, segundo a pesquisa Focus publicada pelo BC nesta segunda-feira. A expansão prevista para o produto industrial foi mantida em 2,33%, avanço muito modesto depois do recuo de 1,1% em 2019, número divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Aqueles 2,23% estimados para o PIB são, de fato, a mediana das projeções. Economistas de algumas grandes instituições financeiras anunciaram estimativas bem menores, depois de conhecidos os números parciais de dezembro e o IBC-Br. Houve caso de projeção reduzida de 2,3% para 2%.

Não está claro se a queda dos indicadores da indústria, do varejo e dos serviços, em dezembro, foi apenas uma acomodação temporária. A piora dos números pode ser sinal de algo mais grave, uma perda de fôlego dos negócios. A redução das expectativas de crescimento em 2020 parece indicar uma séria preocupação diante daqueles dados. Uma acomodação temporária poderia ser compensada por uma retomada do impulso nos meses seguintes, mas essa hipótese parece ter sido pouco valorizada.

Se os fatos confirmarem a intenção de consumo apontada pela pesquisa da CNC, talvez o quadro geral se torne mais positivo. Não se pode esperar grande impulso do investimento empresarial, porque a capacidade ociosa no setor privado ainda deve ser muito ampla. Além disso, os dirigentes de empresa precisam de maior segurança para gastar em máquinas, equipamentos e instalações. A área de infraestrutura deve continuar em marcha lenta, porque falta dinheiro ao setor público e as concessões dificilmente resultarão em obras a curto prazo. Por um bom tempo, o empuxo terá mesmo de vir do consumo, até porque as exportações industriais têm andado muito fracas.

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