A asfixia da classe média

Empobrecimento da classe média também produz perigosas consequências políticas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 03h00

Um estudo feito pelo Instituto Locomotiva para o Estadão/Broadcast revelou que a classe média deixou de consumir R$ 247 bilhões neste ano em decorrência da pandemia de covid-19. Obviamente, o dado é péssimo para os cerca de 105 milhões de brasileiros incluídos nessa categoria socioeconômica – de acordo com o instituto, os pertencentes às faixas B, C1 e C2, ou seja, famílias cuja renda per capita mensal varia entre R$ 667,87 e R$ 3.755,76 –, mas é ainda pior para o Brasil. A classe média consumiu R$ 2,6 trilhões no ano passado, o que representou 60% do total consumido no País.

A bem da verdade, a eclosão da pandemia de covid-19 foi “apenas” o golpe de misericórdia no combalido orçamento da classe média, que já vinha sendo premido mês a mês desde a recessão econômica de 2014-2016, cujos efeitos aí estão até hoje. Muito antes de os brasileiros começarem a ser assombrados pela ameaça do novo coronavírus, as famílias da classe média já sofriam com a perda de renda ou com o medo do desemprego, desdobrando-se em contas e tendo de escolher entre seus compromissos aqueles que podem pagar e os que têm de deixar em aberto.

Do total de ouvidos pelo Instituto Locomotiva – 1.700 brasileiros de classe média com 16 anos ou mais –, 64% disseram ter medo de perder o emprego a qualquer momento, o que é determinante para decisões de consumo. Mais da metade dos entrevistados respondeu que sua renda diminuiu durante a pandemia e 35% acreditam que seus ganhos continuarão a cair mesmo depois de superada a emergência sanitária. É um futuro nada alvissareiro para grande parcela da população brasileira.

A classe média também foi fortemente afetada pela inflação de alimentos e serviços. A natureza do trabalho de muitos de seus integrantes permite o home office. Mais tempo em casa ao longo da pandemia significou aumento das despesas domésticas. “A classe média não preenche os requisitos para receber o auxílio emergencial, como a baixa renda, e tampouco tem poupança, como a alta renda. Assim, sentiu uma grande pressão sobre seu orçamento”, disse ao Estado o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles.

Essa asfixia orçamentária da classe média impõe enormes desafios para as três esferas de governo. No âmbito federal, é fundamental que o presidente Jair Bolsonaro se aprume, deixe de lado sua obsessiva e inoportuna campanha pela reeleição e, enfim, governe o País. Passados quase dois anos de sua posse, a rigor a Nação ainda não conhece o projeto de Bolsonaro para o Brasil, se é que há um, não sabe o que seu governo pretende fazer para superar as crises econômica e sanitária e recolocar o País nos trilhos do crescimento econômico e da geração de investimentos, emprego e renda.

Nas esferas estadual e municipal, governadores e prefeitos terão de lidar com o aumento substancial da demanda por serviços públicos nas áreas de Saúde e Educação. Será uma questão particularmente sensível para os prefeitos eleitos agora em 2020. A pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 53% das famílias de classe média tiveram de cortar ao menos um desses três serviços no curso da pandemia neste ano: plano de saúde particular, contratação de empregadas domésticas ou babás e escolas particulares. Nesse ponto, a pandemia também só serviu como aceleradora de uma tendência que já era observada há alguns anos. É particularmente preocupante o aumento da demanda sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), há muito subfinanciado e carente de investimentos. Hoje, 70% dos brasileiros que precisam de atendimento médico acorrem ao SUS. Em breve, esse porcentual será bem maior e o sistema precisa estar preparado para atender quem dele precisa.

Por fim, mas não menos importante, não se pode negligenciar as consequências políticas do empobrecimento da classe média. Uma classe média premida por reveses econômicos é mais suscetível aos encantos falaciosos de líderes populistas, cujo talento mais notável é a capacidade que têm de oferecer soluções simples para problemas complexos. Sabe-se no que isso pode dar.

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