A asfixia financeira do PCC

Cortar o fluxo de financiamento da facção criminosa é a melhor estratégia para minguar seu poder

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 03h00

A Polícia Federal (PF) deflagrou na segunda-feira passada aquela que considera ser “a maior operação já realizada contra facções criminosas no País”. A Operação Caixa Forte 2 é um desdobramento da Operação Caixa Forte, que no início de agosto avançou, principalmente, sobre o “departamento” do Primeiro Comando da Capital (PCC) responsável pela lavagem do dinheiro proveniente do tráfico de drogas, o chamado “Setor do Progresso”. A PF acerta em cheio ao asfixiar financeiramente a mais poderosa quadrilha, tanto bélica como economicamente, em atividade no País e com seus múltiplos tentáculos já espalhados no exterior.

Nesta nova fase da Operação Caixa Forte, a PF, com a colaboração da Polícia Civil de Minas Gerais, da Polícia Rodoviária Federal e do Departamento Penitenciário Nacional, mobilizou 1,1 mil agentes para cumprir 422 mandados de prisão e 201 de busca e apreensão expedidos pela Justiça de Minas Gerais. Os mandados foram cumpridos em 19 Estados e no Distrito Federal. A Justiça mineira também ordenou o bloqueio de R$ 252 milhões em contas suspeitas de serem administradas por membros do PCC.

Este é um ponto muito importante das investigações da PF: o detalhamento do processo de transferência de parte do lucro do PCC com o tráfico para as contas que administram o pagamento de “mesadas” aos membros da facção criminosa que estão presos, e também o suporte financeiro aos familiares destes que estão em liberdade. Trata-se de uma ação incisiva contra os criminosos. Ao bloquear essa quantia milionária, a Justiça não apenas corta boa parte do fluxo de financiamento de milhares de presos, como também dificulta o pagamento de propina a agentes públicos, seja para autorizar regalias nos presídios, seja até para avisar ao bando com antecedência a deflagração de ações policiais.

Os nomes dos beneficiários do esquema são mantidos em sigilo. Não se sabe se o líder máximo do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, preso num presídio federal de segurança máxima em Brasília, será pessoalmente atingido pelo corte da “mesada”. É lícito inferir que sim. E como ele, outros integrantes da cúpula da facção. Uma ação dessas dificilmente será recebida pacificamente. A PF disse estar atenta a possíveis retaliações perpetradas pelo PCC. As autoridades devem manter o mesmo grau de vigilância que foi adotado em fevereiro do ano passado, quando grande parte da cúpula da facção foi transferida de presídios em São Paulo para penitenciárias federais, sob regime muito mais rigoroso.

O prejuízo sofrido pelo PCC com a Operação Caixa Forte 2 ainda não foi devidamente calculado pelos agentes da PF, mas é alto, não há dúvida. Apenas na casa de um dos alvos da operação, em Santos, os agentes encontraram R$ 2 milhões, além de US$ 730 mil. Na fase 1 da Operação Caixa Forte, a Justiça já havia determinado o bloqueio de 52 contas ligadas ao PCC, o que correspondeu à apreensão de R$ 7 milhões, aproximadamente.

A asfixia financeira é o meio mais inteligente de combater grandes organizações criminosas como o PCC. Evidente que o enfrentamento bélico desse bando fortemente armado se faz necessário. Mas para cada membro morto ou preso pela polícia, há outros tantos, infelizmente, que sonham em fazer parte da quadrilha. A médio e longo prazos, o corte do fluxo de financiamento de suas atividades criminosas é o único meio capaz de minguar a capacidade do PCC de expandir suas atividades, armar-se, comprar apoios e se espraiar por uma miríade de setores da vida nacional.

Lá se vão quase 30 anos que São Paulo, e depois o Brasil e outros países vizinhos, tem de lidar com o crescimento de uma organização criminosa que só opera e se desenvolve por tanto tempo por falha das forças do Estado. Passa da hora de o PCC ser uma página virada na história nacional. A recente operação da PF não é um ponto final, mas é um bom começo do que pode vir a ser o fim da organização.

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