A Bolsa destoou da crise

Mercado de capitais poderá avançar em 2021, se ninguém assustar o investidor

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 03h00

Com mais de 1,5 milhão de novos investidores e recorde na oferta de ações, a Bolsa brasileira (B3) cresceu em 2020 como se o Brasil tivesse atravessado uma fase de prosperidade e criação de empregos. O mercado de capitais foi de longe o setor com melhor desempenho, um resultado até espantoso diante dos principais indicadores da economia real. O Produto Interno Bruto (PIB) do ano deve ter sido 4,40% menor que o de 2019, segundo projeção do mercado. A desocupação oscilou na vizinhança de 13% da força de trabalho e o desastre econômico e social só foi atenuado com muito gasto público emergencial e muito estímulo ao crédito. Mas o setor financeiro festeja e aposta em mais números positivos em 2021.

Boas notícias da Bolsa, no próximo ano, dependerão de importantes fatores extramercado, dizem analistas prudentes. Os donos do capital deverão seguir com muito cuidado a gestão das contas públicas e as condições de solvência do governo. Já estiveram atentos neste ano e em certos momentos preferiram outros destinos, mas, de modo geral, predominaram as condições favoráveis aos negócios na B3.

Juros baixos e menor rendimento das tradicionais contas de poupança atraíram aplicadores nacionais. O número de investidores pessoas físicas chegou a 3,2 milhões, praticamente duplicando. Esse público chegou ao fim do ano com R$ 424 bilhões aplicados em ações. O ingresso desses investidores foi a grande surpresa de 2020, observou o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, em entrevista publicada pelo Estado.

A boa disposição dos investidores, especialmente dos nacionais, garantiu demanda para a grande oferta adicional de ações. Com 28 aberturas de capital e um volume considerável de emissões de empresas já atuantes na Bolsa, R$ 117 bilhões em papéis foram lançados em 2020. Em 2019 as emissões haviam atingido R$ 90 bilhões. Bancos de investimento estimam lançamentos de R$ 140 bilhões em 2021.

Mudanças importantes ocorreram dos dois lados do mercado. Empresas menores que as tradicionais estrelas da Bolsa entraram no jogo, buscando nova forma de financiamento. Descrita por analistas como democratização, a novidade se completou com a chegada de grande número de pessoas físicas em busca de rendimento maior que o das contas de poupança e de novas oportunidades de negócios.

Novos lançamentos de papéis, programados por grandes companhias e também por empresas menores e sem tradição no mercado, são esperados para os próximos meses. Com maior participação que em 2020, investidores estrangeiros deverão reforçar a demanda dessas e de outras ações, garantindo, se as expectativas forem confirmadas, mais um ano de prosperidade na B3.

O capital estrangeiro começou a voltar ao Brasil e a outros emergentes no trimestre final de 2020, depois de se mostrar muito arisco durante vários meses. Ações baratas e dólar valorizado favoreceram essa volta, mas outros fatores contribuíram para maior aceitação do risco. A expectativa de um breve início da vacinação contra a covid-19, começando pelo mundo rico, reforçou as apostas numa recuperação econômica mais firme. Grandes bolsas, como a de Nova York, reagiram rapidamente às notícias de avanços nas pesquisas de vacinas. Parte da valorização recente da B3 foi reflexo dessa reação.

Mais capital estrangeiro poderá contribuir para a consolidação de um mercado de ações mais amplo e mais democratizado no Brasil. Poderá também normalizar o mercado de câmbio, eliminando as fortes oscilações do dólar.

A vacinação poderá mudar sensivelmente as perspectivas internacionais. Mas boas notícias do exterior serão insuficientes para eliminar os desajustes brasileiros. O País chega a 2021 com enorme buraco nas contas oficiais, dívida pública próxima de 100% do PIB, baixo potencial de crescimento e um presidente distante dos problemas nacionais, pouco empenhado até mesmo em cuidar da vacinação. Esse presidente estará no radar dos investidores, afetando a movimentação de bilhões de dólares e, se nada mudar, agravando o descompasso entre o Brasil e o mundo.

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