A cartilha eleitoral dos irresponsáveis

O hoje fiel bolsonarista Ciro Nogueira aprendeu à risca a fórmula de seu ex-ídolo Lula da Silva: a culpa é sempre dos outros, os méritos são só seus

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2022 | 03h00

Em recente artigo no jornal O Globo voltado a propagandear Jair Bolsonaro como a esperança contra o lulopetismo, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), despejou uma pilha de imposturas sobre as maravilhas do governo, dando pistas de como será a campanha do incumbente em 2022.

Como se sabe, a nomeação do presidente do Progressistas à Casa Civil em 2021 sacramentou o casamento entre Bolsonaro e o Centrão. Seu artigo não deixa de ser uma retribuição pela condição de “superministro” à qual foi recentemente alçado, recebendo a prerrogativa, antes exclusiva do titular da Economia, Paulo Guedes, de avalizar mudanças no Orçamento, incluindo as emendas de relator, o chamado orçamento secreto, base do esquema bolsonarista de compra de apoio parlamentar.

A trajetória de Nogueira é em si um exemplo da desfaçatez das hostes fisiológicas do Congresso. Desde que sucedeu ao pai nos anos 90 como deputado federal do Piauí, ele apoiou todos os governos. Mesmo embrenhado na política desde os 26 anos, Nogueira, que responde a inquéritos que investigam propina da Odebrecht e da JBS, encontrou tempo para turbinar sua carreira como vendedor de motocicletas. Entre 2010 e 2018, seu patrimônio declarado saltou de R$ 1,9 milhão para R$ 23,3 milhões. Um prodígio.

Nas últimas eleições, Nogueira chamou Bolsonaro de “fascista” e declarou apoio a Lula – “o melhor presidente deste País” – “até o fim”. Hoje, após ceder sua cadeira no Senado à suplente Eliane Nogueira, sua mãe, ele atua, no controle do Orçamento, como governante de facto, enquanto o presidente alterna sua agenda entre guerrilhas culturais, passeios de jet ski e a campanha eleitoral.

Ao mesmo tempo que acusa o lulopetismo de invocar a campanha do “medo”, o ex-lulista conclama o eleitorado a “olhar para cima” e enfrentar o “cometa do PT”, numa referência cínica à comédia Não Olhe para Cima, que tem feito sucesso por criticar o negacionismo e o oportunismo do establishment político.

O fiel escudeiro bolsonarista parece ter aprendido à risca a lição de seu antigo ídolo, Lula da Silva: a responsabilidade pelos males é sempre dos outros, os méritos pelos avanços são só deles. Seu panegírico se desfaz em loas ao governo por ter enfrentado a pandemia. Assim, a “gripezinha” que Bolsonaro minimizou a todo custo se tornou “a maior pandemia da História da humanidade”, e por isso seria “desonesto” extrair comparações sobre o desempenho econômico do Brasil.

Ora, precisamente por se tratar de uma pandemia, ou seja, de uma ameaça a todo o planeta, é legítimo traçar comparações com outros países, e todos os indicadores mostram que a inflação, a crise de fornecimento, o desemprego ou a depreciação da moeda foram mais graves no Brasil justamente em razão do desgoverno federal.

O governo pintado por Nogueira é, ora vejam, um campeão das reformas, do equilíbrio fiscal, das privatizações, da liberdade de imprensa e das indicações técnicas, e não políticas, às agências e estatais. Supostamente essas alegações são tão evidentes que o articulista se furtou a ilustrá-las com um único exemplo – embora não se possa descartar a hipótese de que não tenha encontrado nenhum.

A única reforma importante desde 2019, a da Previdência – aquela à qual Bolsonaro se opôs enquanto deputado e pela qual pouco se esforçou já como presidente –, foi feita pelo Congresso praticamente à revelia do governo. Tratadas como “o maior programa assistencial da História do País”, as emendas ao Bolsa Família – outrora ridicularizado por Bolsonaro como uma máquina de compra de votos de quem “não quer trabalhar” – foram feitas no improviso, sacrificando a ancoragem fiscal. No Orçamento orquestrado por Nogueira, os investimentos federais sofreram um encolhimento recorde para dar lugar a mais benefícios clientelistas e corporativistas.

“Qual Brasil teremos no dia seguinte à eleição?”, pergunta-se o ministro. “O velho Brasil ou um Brasil novo?” De fato, tudo dependerá da capacidade do eleitorado de olhar à sua volta e rejeitar políticos que, para ter livre acesso ao dinheiro público, são capazes de defender ontem Lula, hoje Bolsonaro e amanhã quem quer que tenha a chave do cofre.

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