A cesta, o mínimo e os ruídos

Cesta básica já custou quase um mínimo em julho e expectativa de inflação segue em alta

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2021 | 03h00

A cesta básica mais simples e mais barata, com 39 produtos essenciais, passou a custar quase tanto quanto um salário mínimo, em julho, na cidade de São Paulo, depois de uma alta de 0,44% no mês e de 22,18% em 12 meses. O custo chegou a R$ 1.064,79. Uma família com renda de um mínimo teria uma sobra de R$ 35,21, suficiente para um gasto adicional de pouco mais de 1 real por dia durante um mês. Que os pobres sejam os mais prejudicados pela inflação é fato conhecido há muito tempo. Os novos dados sobre a cesta básica tornam um pouco mais perceptível o drama de quem tenta sobreviver com o salário de referência. Os dados são da pesquisa realizada pelo Procon-SP em convênio com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Mas essa modestíssima cesta é quase uma ficção, um ideal praticamente inacessível à maior parte das pessoas. Seu valor é a soma dos preços mais baixos encontrados em 40 supermercados da capital paulista. É uma peregrinação fora do alcance da maior parte das pessoas. No máximo, o chamado cidadão comum conseguirá, com alguma sorte e muito empenho, encontrar os melhores preços em alguns endereços próximos, sem jamais igualar o padrão da pesquisa Procon-Dieese.

A cesta é formada por alimentos básicos e produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. É necessário muito mais que um salário mínimo para cobrir o custo desses produtos e outras despesas essenciais, como aluguel, água, esgoto, gás e eletricidade. Esses itens compõem o custo da habitação, um dos mais pressionados no último ano.

Em julho, chegou a 0,96% a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Habitação foi o item com maior aumento, 3,1%, e maior impacto na formação do conjunto (0,48 ponto, metade do resultado geral). A alta acumulada em 12 meses atingiu 11,21%, superando a variação geral do IPCA (8,99%). Os combustíveis domésticos, incluído o gás, encareceram 27,51% – a maior elevação no conjunto dos custos habitacionais.

O quadro piora quando se examina a inflação por faixa de renda. Seis faixas são consideradas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para as três inferiores, a inflação superou 9,50% nos 12 meses até julho. Para a mais baixa, atingiu 10,05%. Para a mais alta, ficou em 7,11%.

Pelo terceiro mês consecutivo, a inflação para as famílias mais pobres foi puxada pelo custo da habitação, com aumento de 0,74%. O maior impacto veio da alta de 7,88% da tarifa de energia elétrica. Mas os preços da alimentação, apesar de algum recuo, continuaram infernizando a população de baixa renda. Para o segmento com menor ganho mensal, a inflação acumulada em 12 meses, de 10,1%, foi a mais alta desde agosto de 2016 (10,6%), quando ainda era muito sensível a herança desastrosa deixada pela presidente Dilma Rousseff.

O País começou a livrar-se dessa herança no mandato do presidente Michel Temer, quando a economia voltou a crescer, a inflação foi contida e os juros básicos, depois de um aumento corretivo, começaram a declinar. Mas essa recuperação foi interrompida em 2019, no começo do mandato do presidente Jair Bolsonaro.

Naquele ano a economia cresceu menos que em 2018. Em 2020 chegou a pandemia. A expansão econômica estimada para 2021 levará o País de volta ao patamar de dois anos atrás. Para 2022 as projeções do Produto Interno Bruto (PIB) apontam crescimento em torno de míseros 2%. As estimativas de inflação, no entanto, já atingem 7,05% para este ano e 3,90% para o próximo.

“É impossível para qualquer banco central do mundo segurar as expectativas de inflação com um fiscal descontrolado”, disse na semana passada o presidente do BC, Roberto Campos Neto. No Brasil, sobram ruídos sobre o futuro das contas públicas – discussões sobre os precatórios, o aumento do Bolsa Família e os incentivos a alguns setores. Tudo isso é fonte de insegurança, de instabilidade cambial e de inflação. Pior para o País, especialmente quando a cesta básica já custa praticamente um salário mínimo.

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