A chaga norte-americana

A violência racial é o estopim para que irrompam tensões jamais superadas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2020 | 01h55

O racismo nos EUA é uma chaga aberta que nem a eleição do primeiro presidente negro na história do país, o democrata Barack Obama, foi capaz de cicatrizar. Todos os dias, na nação que representa a quintessência da democracia moderna, negros recebem um tipo de tratamento que normalmente não seria dado aos brancos nas mesmas situações. Esta realidade ganha contornos dramáticos quando envolve a polícia. De tempos em tempos, um caso particular de violência policial contra negros é o estopim para que irrompam tensões que, na melhor das hipóteses, estavam adormecidas, jamais superadas.

Há cerca de uma semana, o mundo civilizado assistiu em choque a mais um desses episódios, o brutal assassinato de George Floyd em Minneapolis, no Estado de Minnesota. Floyd, um homem negro de 46 anos, foi detido por suspeita de ter passado uma nota falsa de US$ 20 numa loja de conveniência. Desarmado, algemado e no chão, sem oferecer qualquer resistência, foi asfixiado pelo policial Derek Chauvin à luz do dia, diante de dezenas de testemunhas, inclusive a que gravou o vídeo infame. Durante sete minutos de agonia, com o joelho do policial comprimindo o seu pescoço contra a sarjeta, George Floyd suplicou 11 vezes antes de desfalecer e, enfim, ser levado a um hospital, onde chegou morto.

A crueldade da morte de George Floyd desencadeou uma onda de protestos como há muito não se via nos EUA. Jornalistas americanos observam que a dimensão das manifestações ocorridas em cidades como Minneapolis, Nova York, Los Angeles, Las Vegas, Miami, Washington, Chicago, Filadélfia e Atlanta, entre outras, só é comparável às havidas em 1968, após o assassinato do reverendo Martin Luther King Jr., um dos grandes patronos da igualdade racial no país no século 20. Prédios e carros da polícia foram incendiados, lojas saqueadas e espaços públicos e privados foram depredados. Decretos de toque de recolher não passaram de mera formalidade, ninguém os respeitou. Em 11 dos 50 Estados americanos a Guarda Nacional teve de ser acionada. Nem a prisão de Derek Chauvin num presídio de segurança máxima aplacou a ira dos manifestantes, o que sugere que há outras questões subjacentes à tensão racial a motivar os protestos.

Uma dessas questões, seguramente, é o longo histórico de decepções da população negra em relação à atuação do sistema jurídico-penal americano em casos como o de Derek Chauvin. Para começar, o policial foi denunciado por homicídio em terceiro grau, ou seja, homicídio culposo. É de indagar se alguém que joga todo o peso de seu corpo sobre o pescoço de outra pessoa não imagina que pode matá-la. Falar em “imprudência” ou “imperícia” nesse caso, que o mundo inteiro viu como se desenrolou, só serve para gerar justa insatisfação da população. Além disso, as penas aplicadas pela Justiça em casos semelhantes, em geral, são bastante brandas em relação à gravidade dos crimes cometidos pelos policiais, sempre brancos.

Outra questão importante a ser considerada nessa nova onda de protesto é a profunda desigualdade econômica entre brancos e negros. Em Minneapolis, famílias negras têm renda anual equivalente a menos da metade da renda de famílias brancas. Além disso, uma sucessão de leis ao longo dos anos segregou os negros em áreas periféricas da cidade, o que só ampliou o fosso racial. A situação dos negros é ainda mais discrepante em outras cidades do país.

Somem-se a isso os efeitos sanitários e econômicos da pandemia de covid-19, particularmente mais severos sobre as camadas mais pobres da população americana. Lá como cá, guardadas as devidas proporções, os negros são maioria entre os desvalidos. Mais pobres, têm menos acesso a tratamento de saúde. Além disso, estão mais sujeitos a empregos que não lhes garantem uma renda segura para atravessar com relativa tranquilidade o período de isolamento social.

Tendo de enfrentar toda sorte de barreiras sociais, políticas e econômicas cotidianamente, a população negra ainda precisa deixar claro o óbvio em pleno século 21: a vida de um negro não é descartável, importa tanto quanto a de qualquer pessoa, seja nos EUA, seja no Brasil ou em qualquer lugar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.