A compreensível alienação eleitoral

Estudo mostra crescente desinteresse em votar, como reflexo da incapacidade dos políticos de representar os eleitores

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2022 | 03h00

Um estudo realizado pelo Instituto Votorantim e publicado em reportagem do Estadão mostra o crescente desinteresse do brasileiro por participar de forma ativa das eleições. A quantidade de pessoas que deixaram de votar subiu de 18% em 2006 para 25% em 2018. O fenômeno, classificado como “alienação eleitoral”, inclui tanto aqueles que se abstiveram, chamado de alienação passiva, quanto os que optaram pelo voto branco ou nulo, classificado como alienação ativa. O movimento cresce de modo gradual e sustentado há anos, principalmente nas regiões metropolitanas das maiores cidades brasileiras.

Se o voto branco e nulo muitas vezes representa a insatisfação diante das opções disponíveis, a omissão eleitoral pode ser lida como uma expressão da desesperança completa. Ambas, com suas diferenças, explicitam que uma boa parte da população não vê valor em seu voto – e o fato de que os jovens estão entre os que mais optam pelo branco e nulo deveria ser motivo de reflexão por parte dos dirigentes partidários. 

O declínio da participação política pode até ter alcance mundial, mas, no caso brasileiro, devem ser agregadas, também, razões profundamente locais. A fragmentação política, traduzida pela existência de 32 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não contribui em nada para que os cidadãos se sintam representados. E a decepção com os recorrentes escândalos de corrupção decerto tem impacto na decisão de comparecimento às urnas.

Razões que levam a uma crescente indiferença da sociedade em relação à política não param de surgir. O maior e mais recente símbolo do divórcio entre o interesse público e o eleitoral foi o apoio quase unânime do Senado a uma Proposta de Emenda Constituição (PEC) que limou todos os limites fiscais, legais, constitucionais e, sobretudo, morais, usando os mais pobres como pretexto para conferir uma competitividade mínima à candidatura do presidente Jair Bolsonaro à reeleição.

Quando o governo, a oposição e até a dita terceira via se unem a favor do descalabro e da desfaçatez, aumentar o engajamento político pode se tornar uma meta impossível. Uma participação mais ativa, no entanto, é a única solução para resgatar um grau mínimo de representatividade nas instâncias federais, estaduais e municipais.

Apesar desse cenário desalentador, é digno de nota que o índice brasileiro de comparecimento nas urnas, em torno de 75%, é alto quando comparado a outros países latino-americanos. No Chile, a taxa foi de 50% em 2018, enquanto Costa Rica e México atingiram 65% no período. É verdade que no Brasil o voto é obrigatório, mas, na prática, os eleitores que escolhem não votar podem fazê-lo sem maiores problemas – a multa é irrisória e a regularização se faz pela internet.

Ou seja, a despeito da crescente alienação, o brasileiro ainda vai em massa às urnas. Resta à classe política fazer jus a esse voto – do contrário, os mandatos recebidos nas eleições terão cada vez menos representatividade, o que é fatal para a democracia.

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