A comunicação do governo

É auspicioso que a nova gestão tenha claro que a comunicação deve ser a mais objetiva e impessoal possível

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2019 | 05h35

O ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, disse que o governo não recorrerá aos serviços de marqueteiros para realizar a comunicação oficial, como era comum em administrações anteriores. “Esse negócio de marqueteiro assumiu uma conotação muito negativa”, disse Santos Cruz ao Estado, referindo-se à sensação de que esses profissionais se tornaram “especialistas em enganar” os cidadãos. Em vez de divulgar os atos do governo, o marketing oficial era feito para “mudar a realidade”, afirmou Santos Cruz. Segundo o ministro, isso tem de mudar, pois é preciso “transmitir a realidade para a população”.

Trata-se de uma disposição digna de elogio. Depois de tantos anos em que a comunicação do governo foi deliberadamente confundida com campanha eleitoral em tempo integral, é auspicioso que a nova gestão tenha claro que essa comunicação deve ser a mais objetiva e impessoal possível.

Na era lulopetista, o marqueteiro João Santana chegou a ser tratado como uma espécie de ministro sem pasta no governo de Dilma Rousseff. Foi ele o responsável por criar a ficção de que Dilma era uma administradora competente, o que por si só mostra sua competência profissional. Assim como no caso da invenção da “gerentona” Dilma, toda a propaganda travestida de comunicação oficial dos governos lulopetistas disseminou no País a falsa ideia de que se estava operando naquela época a maior revolução econômica e social da história brasileira, em flagrante contradição com a realidade dos fatos. Mas a realidade, afinal, nunca importou para a cúpula lulopetista, desde sempre interessada apenas em ganhar eleições.

Assim, ao prometer uma comunicação oficial sem o viés eleitoreiro ou ideológico que tão bem caracterizou o trevoso período lulopetista, o ministro Santos Cruz parece disposto a assegurar que o governo não tentará ludibriar os cidadãos com falsas promessas nem tampouco deixará de informar objetivamente qual é a situação do País e o que precisa ser feito para enfrentar os graves problemas nacionais.

Para isso é preciso, em primeiro lugar, tratar o cidadão não como eleitor, de quem se espera apenas o voto e para quem se costuma prometer a prosperidade sem esforço, e sim como participante do geralmente doloroso processo de reformas - que demanda sacrifícios de todos. Ao dizer que o governo vai “transmitir a realidade para a população”, o ministro Santos Cruz dá a entender que esse será o espírito da nova comunicação oficial.

O momento não poderia ser mais oportuno. Os brasileiros precisam estar convencidos de que a situação do País, que já é ruim, se degradará dramaticamente nos próximos anos se não houver profundas reformas, a começar pela Previdência Social. Se houver essa conscientização nacional a respeito de tão sensível tema, apesar de toda a gritaria mendaz sobre “perda de direitos”, o Congresso certamente haverá de aprovar essas urgentes mudanças.

Para atingir tal objetivo, a comunicação oficial do governo deve ser a mais eficiente possível, e isso depende, sobretudo, da qualidade das propostas a serem encaminhadas pelo governo. A propósito da reforma da Previdência, por exemplo, ainda não se sabe qual será o modelo a ser proposto pelo presidente - e tal indefinição compromete a mensagem que o governo deve passar à sociedade com o objetivo de prepará-la para as mudanças. O próprio presidente tem colaborado com essa confusão, ao soltar no ar ideias sobre a reforma sem fazê-las acompanhar de dados ou informações concretas que indiquem como elas seriam efetivamente implementadas.

Assim, cresce uma preocupante sensação de improviso, o que demandará dos responsáveis pela comunicação do governo trabalho dobrado: para elaborar “informação de qualidade pelo bem público”, como promete o ministro Santos Cruz, será preciso, antes de mais nada, definir com transparência e firmeza quais são os objetivos do governo em relação às questões que realmente importam para o futuro do País. Sem isso, não se terá mais que slogans vazios.

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