A confiança da sociedade

O SUS e as escolas públicas são mais confiáveis hoje do que eram antes da pandemia.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2020 | 03h00

O Índice de Confiança Social (ICS), levantamento realizado anualmente pelo Ibope Inteligência para aferir o grau de confiança da sociedade nas mais diversas instituições, traz resultados muito alentadores em sua edição de 2020, publicada em primeira mão pela revista Piauí há poucos dias.

Nota-se um pequeno, porém consistente, aumento da confiança dos brasileiros em instituições que tradicionalmente são vistas com bastante ceticismo pela sociedade, como o Congresso Nacional, os partidos políticos, o sistema eleitoral e as organizações da sociedade civil. Não que estas instituições tenham passado a gozar da confiança da maioria dos brasileiros de um ano para o outro, mas a mera diminuição da descrença em relação a elas já seria um ponto bastante positivo para o amadurecimento democrático do País. A pesquisa do Ibope Inteligência mostra que houve mais do que isso.

O Corpo de Bombeiros segue no topo do ranking como instituição mais confiável do País, com 89 pontos (88 em 2019), seguido pela Polícia Federal, com 74 pontos (72 na edição do ano passado), as Igrejas (71 pontos em 2019 e 73 pontos neste ano) e as Forças Armadas, que neste ano obtiveram 72 pontos, um crescimento de 3 pontos em relação à pesquisa feita no ano passado. Também se verificou um aumento de 6 pontos na confiabilidade das instituições financeiras, que saltaram de 59 pontos no ano passado para 65 pontos em 2020.

O Congresso Nacional saiu de 34 pontos no ano passado para 36 pontos neste ano. Já os partidos políticos subiram de 27 para 30 pontos. Os meios de comunicação mantiveram a pontuação do ano passado: 61 pontos.

O que salta aos olhos, no entanto, é o crescimento recorde da confiança dos brasileiros no Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS saltou de 45 pontos na pesquisa anterior para 56 pontos no ICS de 2020, o maior índice de confiança no sistema público de saúde em 12 anos. O aumento da confiança da população no SUS é ainda mais expressivo tendo em vista que há anos o sistema não recebe investimentos e é subfinanciado.

Não fosse o SUS, nunca será demais lembrar, a história da pandemia de covid-19 no País teria sido outra, indubitavelmente mais funesta. A sociedade demonstra ter esta clareza, reconhecendo a imprescindibilidade de uma instituição como o SUS em um país tão carente de serviços públicos como o Brasil. Isso lança luz sobre a premente necessidade de união dos Poderes Executivo e Legislativo e organizações da sociedade civil a fim de estudar e implementar medidas que fortaleçam o SUS cada vez mais. Na Câmara dos Deputados foi instalada uma comissão especial encarregada pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-SP), de propor a revisão da tabela de remuneração dos serviços prestados pelo SUS, entre outras ações. No âmbito do Executivo a situação é mais preocupante, haja vista que há pouco tempo o ministro da Saúde, o general intendente Eduardo Pazuello, chegou a confessar que desconhecia o SUS até tomar posse no Ministério.

Além do SUS, o ICS de 2020 revela um crescimento expressivo do grau de confiança da sociedade nas escolas públicas, que pela primeira vez na série histórica atingiram os 70 pontos (66 em 2019).

Tanto o crescimento da confiança no SUS como o nas escolas públicas são corolários de uma crise econômica que adquiriu contornos dramáticos com a eclosão da pandemia. É cada vez maior o número de brasileiros que acorrem aos serviços públicos por terem perdido condições para arcar com os custos dos serviços privados. Como bem destacou a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, mais pessoas precisaram de serviços públicos no período, e “quem usa confia mais do que quem não usa” esses serviços.

De todas as instituições avaliadas pelo Ibope Inteligência, todas cresceram em confiabilidade neste ano, exceto o governo federal e a Presidência da República. A gestão, por assim dizer, do presidente Jair Bolsonaro em um cenário de crise econômica e sanitária fala por si só.

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