A COP 25

O resultado da Conferência sobre a Mudança Climática da ONU parece mais um compêndio difuso de ambições do que um plano de ações

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2019 | 03h00

Após 11 dias de discussões em Madri, o resultado da Conferência sobre a Mudança Climática da ONU (COP 25), consubstanciado na declaração Hora de agir, parece mais um compêndio difuso de ambições do que um plano coordenado de ações. Compreensivelmente decepcionante para os ambientalistas, não é necessariamente um malogro. Toda grande mudança é gestada assim. Mas também toda grande frustração. Para evitá-la, as lideranças precisarão mostrar até a COP 26 a medida do seu comprometimento e até onde estão dispostas a pagar o seu preço.

A COP começou sob o alerta do último relatório da ONU: a janela para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas está se fechando. O Acordo de Paris de 2015 estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura em relação aos níveis pré-industriais abaixo de 2°C. Conforme o atual consenso científico, um aumento superior desencadearia danos irreversíveis. Mas segundo o relatório, os compromissos em vigor, mesmo que plenamente cumpridos, levarão a um aumento de 3,2°C até o fim do século.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, relembrou na abertura o objetivo de progredir em itens cruciais, como desmatamento, indígenas, finanças, tecnologia e sobretudo a concretização do Artigo 6 do Acordo de Paris, referente aos mercados de carbono. Em termos regulatórios os avanços foram tímidos, mas políticos e empresários mostraram sentir a pressão da nova geração de eleitores e consumidores, personificada na ativista Greta Thunberg e sua multidão de “crianças irritadas”. Um exemplo foi a declaração do Investor Agenda, um grupo de 631 investidores responsável por US$ 37 trilhões em ações, intimando os governos a enfrentar a crise por meio de medidas como a taxação da poluição por carbono ou a supressão dos subsídios aos combustíveis fósseis.

Na esfera pública, a resposta mais enérgica veio da União Europeia. A nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs em Bruxelas um ambicioso “Green Deal”, que reformula todos os aspectos da economia europeia à luz das metas ambientais. Em Madri, ela afirmou que o Pacto pode, a um tempo, estimular o crescimento, enfrentar as mudanças climáticas e combater as desigualdades, sob três condições: que ele seja colocado no centro das estratégias de crescimento; que o investimento em inovação verde seja catalisado através de todos os setores; e que se planeje uma justa transição para que os trabalhadores não fiquem para trás.

O Pacto inclui a primeira lei europeia a prever uma transição irreversível para a neutralidade climática, reduzindo pela metade as emissões de efeito estufa até 2030 e zerando-as até 2050. Isso implica reformular instrumentos como bancos centrais e fundos de investimentos, além da legislação industrial, agropecuária e comercial. Seria a maior reforma da União Europeia desde a sua fundação. Não é impossível. A Europa é a única região que conseguiu reduzir consistentemente as suas emissões nos últimos 20 anos e foi a maior protagonista na concretização do Acordo de Paris. 

Mas essas ambições têm um preço. A Comissão estima investimentos anuais de US$ 192 bilhões a US$ 320 bilhões para atingir a emissão “zero”. Parte deste custo recairá sobre os investidores privados. Será um teste para o idealismo de grupos como o Investor Agenda. Basta pensar no destino dos chamados “ativos encalhados”, como as reservas de gás, carvão e petróleo. Segundo a rede de finanças sustentáveis Principles for Responsible Investment, os novos regulamentos podem desintegrar até US$ 2,3 trilhões, ou 4,5%, do valor dos mercados de ações. Dos quase 2.600 signatários da rede, segundo o seu chefe de investimentos, apenas 2% estão preparados para as mudanças.

Integrar preservação, crescimento e igualdade não é uma utopia, mas um ideal possível, sobretudo a longo prazo. No calor da hora presente, contudo, escolhas realistas terão de ser feitas e sacrifícios serão inevitáveis. O próximo ano será uma prova ao engajamento dos poderes públicos e da iniciativa privada.

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