A crise da fome se aproxima

Medidas protecionistas agravam o problema do abastecimento mundial de alimentos, cujos preços explodiram

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2022 | 03h00

O perigo de o mundo enfrentar uma crise de fome que afetará centenas de milhões de pessoas, especialmente as de menor renda e as que vivem nas nações mais pobres, é cada vez mais real – e iminente. O crescente temor manifestado por dirigentes de organizações internacionais de que o problema, já preocupante, está se agravando por causa da guerra na Ucrânia vem acompanhado de advertências aos governos para que, se não conseguirem evitar o problema, pelo menos não o agravem. O apelo lançado em abril por quatro das principais organizações multilaterais ligadas a finanças, comércio e alimentação tem claramente esse objetivo. O resultado, no entanto, tem sido escasso, ou até o contrário do necessário. A cada dia, mais governos impedem exportações, com o que ampliam a escassez de alimentos no mercado mundial já conturbado pelos efeitos da guerra.

A Ucrânia invadida e a Rússia invasora respondem por parcelas expressivas da produção mundial de itens de grande peso no comércio mundial de commodities agrícolas. Em condições normais, as duas nações fornecem mais da metade do óleo de girassol e mais de um quarto de todo o trigo comercializado no mercado internacional. Além disso, estão entre os principais fornecedores de milho e, em especial, de fertilizantes utilizados em todo o mundo, inclusive no Brasil, que está sendo forçado a buscar outras fontes.

É provável que, apesar do esforço militar para conter a invasão pela Rússia, a Ucrânia tenha conseguido preservar parte expressiva de sua produção agrícola. Relatos dessa natureza têm sido feitos por dirigentes e produtores ucranianos em reuniões internacionais. O problema é o escoamento dessa produção, que em condições normais é exportada através dos portos no Mar Negro. É nessa região, no leste ucraniano, no entanto, que hoje se concentram os combates entre Ucrânia e Rússia, razão pela qual os portos, inclusive o de Odessa, o mais importante deles, não podem ser utilizados.

O impacto da quebra do fornecimento russo e ucraniano e dos riscos adicionais que a guerra trouxe para o comércio mundial, associado aos problemas decorrentes da pandemia e que eram sentidos antes do início do conflito – especialmente os gargalos na cadeia de suprimento de importantes componentes industriais –, tem sido explosivo sobre os preços, especialmente dos alimentos. O índice de preços calculado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em abril era 30% maior do que o de um ano antes. Só neste ano a cotação do trigo subiu cerca de 60%.

O Banco Mundial estima que o aumento de 1% no preço da alimentação empurre mais 10 milhões de pessoas para a pobreza. Isso dá uma ideia de como a alta dos preços afeta a vida da população mais pobre.

Inflação tornou-se problema mundial, pois, além dos alimentos, a guerra na Ucrânia fez explodir também os preços do petróleo e de seus derivados. No Brasil, a alta média dos preços é a mais expressiva em muitos anos, e tem levado o governo federal, incapaz de administrar este e muitos outros problemas, a tomar medidas que não resolvem a questão e criam outros, sobretudo na área fiscal.

Além do aumento de preço, a escassez passa a ser problema igualmente grave para os países que importam parte expressiva dos alimentos que consomem. A quebra do fornecimento ucraniano e russo já seria problema grave o suficiente para perturbar o mercado mundial de alimentos. Para evitar o agravamento do problema, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e o Programa Alimentar Mundial (vinculado à ONU) exortaram as nações produtoras de alimentos a manter suas fronteiras comerciais abertas, sem impor restrições às exportações.

O resultado tem sido contrário. Na semana passada, a Índia, segunda maior produtora mundial de trigo, anunciou que interromperá suas exportações do produto. Segundo levantamento recente, já são 23 os governos que, em nome da necessidade de abastecimento interno, anunciaram medidas de restrição às exportações de alimentos. 

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