A crise da ordem liberal

O único caminho para unir prosperidade e justiça é ampliar a liberdade individual distribuindo responsabilidade social

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2019 | 03h00

No fim da guerra fria valores liberais como o livre mercado e a liberdade individual pareciam tão consolidados que Francis Fukuyama chegou a se perguntar se a democracia ocidental consumava O Fim da História. A sua resposta foi “sim” - mas a da História foi “não”. “O liberalismo criou o mundo moderno, mas o mundo moderno está se voltando contra ele”, constatou há pouco a revista The Economist em seu Manifesto pela renovação do liberalismo. Para discutir esta crise de identidade da ordem liberal, a Fundação Fernando Henrique Cardoso promoveu um debate com estudiosos do núcleo “Contestações do roteiro liberal” (Scripts), sediado na Universidade de Berlim.

A economia mais bem-sucedida das últimas décadas, a caminho de se tornar a maior do mundo - a China -, é uma ditadura cada vez menos liberal. O mesmo autoritarismo recrudesce na Rússia, enquanto o mundo islâmico se retrai às suas raízes tribais. Ao mesmo tempo, vacilam os alicerces do liberalismo no Ocidente. De acordo com o instituto Freedom House, na última década as liberdades e direitos civis fortaleceram-se em apenas 35 países, ao passo que se deterioraram em 75 e só 13% da população mundial vive em um país onde a imprensa é plenamente livre.

Não à toa a própria noção de liberalismo é desfigurada à esquerda e à direita. Nos EUA consolidou-se a associação do termo liberal com a esquerda e suas pautas frequentemente antiliberais, como a obsessão por políticas identitárias radicadas em militâncias divididas por raça, religião ou sexualidade, que muitas vezes se sobrepõem ao interesse comum, promovem a censura e excitam o seu oposto: o reacionarismo autoritário. Por outro lado, o liberalismo é também associado ao “ultraliberalismo” ou “neoliberalismo” de direita, que nada mais é que o “capitalismo selvagem” ou darwinismo social, que conduz a resultados antiliberais, como a perpetuação do status quo, a concentração de renda ou a agressão ao meio ambiente, além de também inflamar o seu oposto: o intervencionismo centralizador.

De um lado ou de outro, questionam-se as conquistas liberais desde o pós-guerra - a globalização econômica, os fluxos migratórios, a ordem democrática internacional - como produtos de uma elite incapaz de responder aos problemas do povo. Ondas populistas - como a campanha nacionalista de Donald Trump contra o cosmopolitismo do governo Obama ou movimentos como o Brexit ou o Cinco Estrelas contra a burocracia de Bruxelas - propagam-se pelo planeta prometendo aos eleitores “retomar o controle”.

Como sugeriram os pesquisadores do Scripts, assim como os editores da Economist e outros liberais, se o liberalismo quiser se reinventar, deve ser a um tempo conservador e progressista: deve progredir por meio de reformas que proliferem seus frutos - as liberdades civis, políticas e econômicas - conservando suas raízes ou princípios. Estes, segundo um dos maiores historiadores do liberalismo, Edmund Fawcett, podem ser resumidos a quatro - os dois primeiros contrapostos à mentalidade reacionária, os dois últimos, à revolucionária -: primeiro, que a sociedade, precária e falível, deve ser um espaço de competição de ideias; depois, que esta sociedade, sendo dinâmica, deve ser melhorada; terceiro, a desconfiança do poder e sua tendência à centralização; e, finalmente, o respeito ao indivíduo e seus direitos civis, políticos e de propriedade.

A crença liberal é de que, com justa regulamentação, quanto mais livre o mercado, maior a distribuição de riqueza; quanto mais poder se dá às comunidades locais, mais se fortalece a ordem global; quanto mais imigração, mais se enriquece a cultura nacional; quanto mais liberdade de expressão, maior é a concórdia civil. Se valores como esses parecem inconciliáveis, como querem os antiliberais, é pela incapacidade dos liberais de justificar com palavras e concretizar com atos a sua missão: ampliar a liberdade individual distribuindo a responsabilidade social - o único caminho para unir a prosperidade e a justiça.

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