A crise de um bom projeto político

Parece claro que somente a partir da retomada de seu perfil histórico, abandonado por interesses imediatistas, o PSDB poderá se apresentar como antídoto para o atraso

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2022 | 03h00

Na enésima manifestação pública de desacordo entre as lideranças tucanas, o ex-governador João Doria substituiu o coordenador de sua pré-campanha à Presidência da República: no lugar do presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, assumiu Marco Vinholi, aliado do ex-governador e dirigente do partido em São Paulo. 

A razão da substituição, segundo a equipe de Doria, foi a postura “pouco agregadora” de Araújo, que diminuía o papel do ex-governador na disputa pela Presidência. De fato, em evento recente do PSDB, Araújo afirmou que a aliança entre as legendas que articulam uma candidatura única da chamada “terceira via” se sobreporia ao nome do partido à Presidência. Daí não ter surpreendido a leveza com que tratou de sua substituição na coordenação da campanha presidencial. Comentando-a nas redes sociais, ele escreveu: “Ufa”.

A resistência à candidatura de Doria é maior, por incrível que pareça, no próprio PSDB, apesar de o ex-governador ter vencido as prévias realizadas pelo partido para definição de seu pré-candidato à Presidência. Prévias que, ao invés de unir, acabaram desunindo ainda mais o partido aos olhos de toda a opinião pública. A ponto de o candidato derrotado ali, Eduardo Leite, ainda se declarar como opção para a disputa presidencial: “Estou na pista”, disse ele recentemente.

A resistência de Leite em aceitar o resultado de uma eleição não faz lembrar apenas de Jair Bolsonaro; remete também ao seu correligionário Aécio Neves após a eleição presidencial de 2014. Vale lembrar aqui a entrevista concedida a este jornal em 2018 por Tasso Jereissati, ex-presidente nacional do PSDB. Segundo ele, na série de erros que fragilizaram a reputação do partido nos últimos anos, o primeiro teria sido questionar a vitória da petista Dilma Rousseff: “Não é da nossa história e do nosso perfil. Não questionamos as instituições, respeitamos a democracia”, disse Tasso. 

Fundado em 1988, o PSDB reuniu quadros de reconhecida seriedade e competência num projeto voltado à concretização do ideário trazido pela Constituição Federal de 1988, de inspiração social-democrata, cuja elaboração contou com a participação ativa de alguns de seus membros, como Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso. 

Fernando Henrique se elegeu presidente em 1994, e seu governo deixou marcas importantes, como a estabilização da moeda, a introdução de um robusto arcabouço legal para a manutenção do equilíbrio fiscal e a construção de marcos institucionais de diferentes políticas públicas: urbana, de saúde, na educação e no combate à pobreza extrema. 

O PSDB de hoje não dialoga com essa herança. Alguns até dispensam a social-democracia que o partido carrega em seu nome. O próprio João Doria, em 2019, encomendou pesquisa para avaliar uma possível mudança de nome do partido. Ideia a que Geraldo Alckmin se opôs à época, afirmando que se deveria “fortalecer aquilo que fez a origem, o nascimento do PSDB, que é a social-democracia”.

No final de 2021, Alckmin deixou o PSDB para se filiar ao PSB. E o fez para embarcar na candidatura de ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva, o que dá mais uma prova da pane no interior do partido e mostra que o chamado de Tasso Jereissati à história e perfil do PSDB, referido acima, valia também para seus líderes históricos.

Parece claro que é somente a partir dessa história e desse perfil que o PSDB poderá eventualmente reerguer-se. O espírito social-democrata que inspirou a fundação do partido reclama o desenho de um projeto para o País que vá além de um único ciclo eleitoral; que explique aos cidadãos que o País em que vivemos pode ser melhor, desde que se respeitem os limites fiscais e que se direcionem os recursos públicos para enfrentar os grandes problemas nacionais; que mire não o eleitor vingativo, aquele que se põe “contra tudo o que está aí”, mas o eleitor que sabe que a política é o único meio de debater e solucionar os problemas nacionais. 

Ou o partido pode seguir em sua estratégia atual e assemelhar-se cada vez mais a um partido do Centrão, aquela entidade amorfa que tão bem representa o abastardamento da política.

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