A crise está contratada

É muitíssimo grave que o presidente da República diga com um ano e quatro meses de antecedência que a eleição de 2022 só será limpa se ele sair vitorioso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 03h00

Considerado um “mau militar”, Jair Bolsonaro saiu do Exército em desonra para entrar na política de forma explosiva. Sua longa e desenxabida carreira no Poder Legislativo ficou notabilizada pela politicagem miúda, pela vulgaridade e pelo desrespeito aos princípios mais comezinhos da democracia. Ao longo dos últimos 33 anos, sempre que Bolsonaro chamou a atenção para sua figura foi por razões que envergonhariam os grandes nomes que ajudaram a escrever a história do Parlamento brasileiro.

Ora, se entrou na política estimulando a baderna, construiu sua bem-sucedida (do ponto de vista pessoal) carreira parlamentar lamentando o fato de no Brasil viger plena democracia e chegou à Presidência da República como um líder sectário, por que cargas d’água Bolsonaro haveria de sair dela como um estadista?

Semana sim e outra também, o presidente tem lançado suspeitas sobre a higidez do sistema eleitoral eletrônico, que, segundo ele, seria suscetível a fraudes. Isto não é outra coisa se não pretexto para criar mais confusão no País caso não seja reeleito. E Bolsonaro tem razões para ficar preocupado com esta possibilidade. Pesquisas de intenção de voto realizadas por diferentes institutos têm indicado que não é mais remota a possibilidade de Bolsonaro sequer chegar ao segundo turno da eleição de 2022. Evidentemente, ainda falta tempo para o pleito e tudo pode mudar. Fato é que a rejeição sofrida pelo incumbente, pesquisa após pesquisa, tem caminhado mais para o ponto de irreversibilidade do que de inflexão.

Em entrevista à Rádio Guaíba na quarta-feira passada, Bolsonaro tornou a dizer mentiras sobre nosso sistema eleitoral e a ameaçar a Nação. “Sem o voto impresso, algum lado pode não aceitar o resultado (da eleição). Esse lado, obviamente, é o nosso lado”, disse o presidente.

É muitíssimo grave que o presidente da República diga com 1 ano e 4 meses de antecedência que a eleição de 2022 só será limpa se ele sair vitorioso. Como se não bastasse, Bolsonaro acusou o Supremo Tribunal Federal (STF), especificamente o ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de fazer parte de um conluio para permitir a volta do petista Lula da Silva à Presidência.

“Não podem botar em votação (o voto impresso) porque vão perder por causa da interferência do ministro Barroso, um péssimo ministro”, disse Bolsonaro à Rádio Guaíba. “Quando Barroso vai negociar com lideranças partidárias para que não tenha voto impresso, o que ele quer com isso? Fraude nas eleições”, afirmou o presidente. Bolsonaro encerrou a entrevista com nova ameaça: “Sem voto auditável, haverá problemas”. Que problemas seriam estes? Até quando a Nação aceitará este tipo de chantagem vindo da mais alta autoridade da República?

O ministro Barroso não respondeu. Coube ao presidente do STF, ministro Luiz Fux, dar a devida resposta institucional ao ataque proferido por Bolsonaro. “O Supremo Tribunal Federal ressalta que a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição a qualquer brasileiro, deve conviver com o respeito às instituições e à honra de seus integrantes, como decorrência imediata da harmonia e da independência entre os Poderes”, disse Fux por meio de nota. “O STF rejeita posicionamentos que extrapolam a crítica construtiva e questionam indevidamente a idoneidade das juízas e dos juízes da Corte Suprema”, concluiu o ministro.

A despeito de seu comportamento reprovável, por vezes repulsivo, Bolsonaro obteve sucessivos êxitos eleitorais. E não apenas para si, mas também para sua prole masculina, que não trai sua origem. É lícito inferir, portanto, que no entender do presidente o estímulo à confusão e a agressividade são ativos importantes para a construção de uma carreira política de sucesso. Afinal, Bolsonaro foi eleito mandatário supremo do País sendo exatamente quem sempre foi.

Fiel à sua natureza, Bolsonaro segue estimulando a balbúrdia e já contratou a crise do próximo ano. Se será uma grave crise institucional ou choramingo de um eventual mau perdedor, as forças vivas da Nação vão dizer.

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