A crise no Irã

O tempo dirá se Trump deu um 'passo aventureiro'. Todos os governos com interesses na área devem agir com cautela

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 03h00

É cedo para ter clareza sobre os desdobramentos da morte de Qassim Suleimani, líder da Força Quds, grupo de elite da Guarda Revolucionária do Irã. Tudo dependerá da reação do país persa ao ataque ordenado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, na semana passada. E esta reação, até o momento, está limitada à adoção de uma retórica de guerra e ao anúncio do fim do acordo nuclear firmado em 2015 pelo Irã, os cinco países-membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) – Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China – e a Alemanha. A rigor, o acordo já não vinha sendo cumprido por Teerã, que sorrateiramente enriquece urânio acima do patamar de utilização para fins pacíficos (cerca de 3,5%), embora ainda muito abaixo dos 90% necessários para a produção de uma bomba.

Um misto de pilhéria e desinformação fez crescer mundo afora, inclusive no Brasil, o temor de que o assassinato do major-general Suleimani, segunda maior autoridade do Irã – ele respondia diretamente ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei –, faria eclodir a “terceira guerra mundial”. A tese pode até divertir como roteiro de filme de ação, mas não faz sentido no mundo real, já que os dois maiores adversários geopolíticos dos Estados Unidos, Rússia e China, foram bastante cautelosos em suas primeiras manifestações.

Em nota do Ministério das Relações Exteriores, a Rússia se limitou a prestar condolências ao povo iraniano, que tinha Suleimani como herói nacional, e a condenar o ataque norte-americano, classificando-o como “um passo aventureiro que elevará a tensão em toda a região do Oriente Médio”, o que é evidente. A China exortou os Estados Unidos a “não abusarem da força”. Seu ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, afirmou que “a China se opõe ao uso da força nas relações internacionais” e que “o uso de meios militares, como pressão extrema, está fadado ao fracasso”.

Se nada indica a iminência de um conflito em escala global, é evidente que a ação militar dos Estados Unidos foi um ato de guerra. Suleimani era um alvo militar, tido pelo Pentágono como responsável pela morte de, pelo menos, 600 militares e civis norte-americanos no Oriente Médio. Analistas internacionais foram unânimes em apontar que falta definir apenas “onde”, “quando” e “como” essa guerra se dará. O mais provável é que a retaliação do Irã comece por alvos norte-americanos no Iraque.

A impressionante presença popular nas ruas de Teerã nas homenagens póstumas a Qassim Suleimani mostra que para expressiva parcela do povo iraniano o líder da Força Quds é um mártir. No entanto, é bom não perder de vista que o militar é responsável, direta ou indiretamente, pela morte de milhares de militares e civis iraquianos, sírios, libaneses e norte-americanos. Suleimani também não hesitou em lançar sua temida tropa contra os próprios iranianos a fim de conter os protestos contra os desmandos da teocracia do aiatolá Khamenei. Sua brutalidade não ficou restrita a alvos no Oriente Médio. A Força Quds comandada por Suleimani é suspeita de ter participado, junto com o grupo terrorista Hezbollah, do Líbano, do atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994. No ataque, 85 pessoas foram mortas e 300 ficaram feridas.

O tempo irá dizer se o ataque mortal ordenado pelo presidente Donald Trump foi ou não “um passo aventureiro” dado pelos Estados Unidos no Oriente Médio. Fato é que dois de seus antecessores, os ex-presidentes George W. Bush e Barack Obama, tiveram a chance de eliminar Suleimani, figura central no planejamento e execução de ações hostis aos Estados Unidos na região, e não o fizeram. Ou Donald Trump tem informações que os dois não possuíam à época de seus mandatos ou foi mais audacioso do que eles – há quem diga “imprudente” ou movido por interesses eleitorais.

O melhor que pode ocorrer diante de um cenário ainda por ser totalmente desfraldado é a adoção de cautela por todos os governos com interesses na área. 

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