A crise real que Guedes ignora

A inflação, que não preocupa o ministro, ameaça a sobrevivência de pequenas empresas, incapazes de pagar dívidas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2022 | 03h00

O mundo de maravilhas em que se transformou o Brasil na visão imaginosa (e eleitoreira) do ministro da Economia, Paulo Guedes, está muito distante do mundo real em vivem milhões de brasileiros cuja renda, quando a têm, está sendo corroída, e outros milhões de empreendedores que enfrentam dificuldades cada vez maiores para pagar suas dívidas. Tudo por causa do “inferno” da inflação, do qual, garante Guedes, o País já saiu. Os dados o desmentem e analistas privados preveem que a inflação continuará alta. E a atividade econômica se manterá muito fraca.

Enquanto o fantasma do desemprego continua a assombrar os trabalhadores, sistemática e silenciosamente a inflação vai corroendo a capacidade financeira de todos, empregados e empregadores, trabalhadores por conta própria, pessoas sem ocupação, mas que têm alguma poupança para sobreviver por meios próprios e empresas de menor porte.

Essas empresas são responsáveis por boa parte dos empregos no País, além de, no caso de microempreendimentos, terem se transformado em fonte de renda para muitos trabalhadores que, em razão da baixa atividade econômica, perderam a ocupação anterior. A crise financeira por que elas passam por causa da inflação, em alta desde o ano passado, e adicionalmente por causa do aumento dos juros ameaça a continuidade de suas operações e afeta a estabilidade de muitos fornecedores.

Caso o problema não seja resolvido de alguma forma, o impacto sobre o mercado de trabalho e sobre a produção poderá ser forte. Especialistas em crédito sugerem que só uma grande operação de renegociação das dívidas aliviará a situação dessas empresas. Em média, cada uma delas tem dívidas com sete fornecedores. O quadro é preocupante.

Dificuldades financeiras das micro e pequenas empresas vêm se acentuado pelo menos desde agosto do ano passado, de acordo com os indicadores da Serasa Experian. Os últimos dados disponíveis referem-se a março, quando o total de pequenas e microempresas inadimplentes alcançou 6,1 milhões.

Uma plataforma especializada em concessão de crédito para pequenas e microempresas, com ativos estimados em R$ 250 milhões, estima em cerca de 20% o estoque de crédito que precisa ser refinanciado. Da dívida total, cerca de 80% são com fornecedores, não com bancos.

Aumento do prazo para a quitação, que resulta na queda do valor da prestação, pode ser um dos caminhos para preservar algum caixa. No caso da plataforma citada acima, o valor médio das prestações pode cair de R$ 5 mil para R$ 4 mil.

A inflação, que deixou de ser problema para Guedes, afeta duramente as finanças das empresas de menor porte porque faz subir os preços dos insumos. A baixa atividade econômica inibe a correção dos preços cobrados pelas empresas devedoras, cuja margem, por isso, está sendo corroída. Assim, reduz-se sua capacidade de pagar as prestações da dívida.

Praticamente ninguém que conhece o mundo real vê alívio da inflação pelo menos até o último trimestre do ano. Este é o Brasil de verdade; o mundo de Guedes é outro. 

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