A Cúpula de Ambição Climática

Em relação aos quatro anos anteriores, as promessas nitidamente se robusteceram

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2020 | 03h00

No último dia 12, há exatos cinco anos do Acordo Climático de Paris, líderes de mais de 70 países se reuniram na Cúpula de Ambição Climática para renovar seus compromissos. Em relação aos quatro anos anteriores, as promessas nitidamente se robusteceram. Ainda é cedo para saber se efetivamente serão cumpridas, mas, se forem, os próximos anos podem testemunhar uma importante mudança de paradigma.

Quando o Acordo foi firmado, havia um reconhecimento tácito de que os compromissos de então eram insuficientes para atingir a meta de estabilizar a média da temperatura global em 2°C – idealmente 1,5°C – acima dos níveis pré-industriais. Assim, foi pactuada uma cláusula determinando que a cada cinco anos as partes se reuniriam para ponderar os avanços tecnológicos, econômicos e sociais e oferecer metas mais ambiciosas.

Desde então, os signatários entraram em muitos impasses sobre as regras do Acordo – notadamente, em relação ao mercado de carbono –; as emissões seguem crescendo – o último quinquênio foi o mais quente de que se tem notícia e as catástrofes naturais parecem se intensificar –; e o segundo maior emissor de gás carbônico, os EUA, abandonou o pacto.

Diante disso, é-se tentado a concordar com a ativista Greta Thunberg: “Alvos hipotéticos são estabelecidos, e grandes discursos são oferecidos. Mas, quando se trata da ação imediata, ainda estamos num estado de completa negação”. Mas, se a revolta e a impaciência são compreensíveis – talvez mesmo desejáveis – numa jovem de 17 anos, elas não bastam para uma análise precisa dos fatos nem para sustentar decisões.

Nos últimos meses Japão, Coreia e, sobretudo, China, a maior emissora do mundo, anunciaram metas de emissão zero até a metade do século. Um dia antes da cúpula, a União Europeia revisou a sua meta de redução até 2030 de 40% para 55% em relação aos índices de 1990. O Reino Unido se comprometeu com uma redução de 68%, sendo o primeiro país a ficar em linha com as metas do Acordo de Paris. O presidente eleito norte-americano, Joe Biden, já declarou que o meio ambiente é prioridade e que pretende reintegrar os EUA ao Acordo e apresentar um plano climático de US$ 2 trilhões ao Congresso. Reunidas, essas nações respondem por quase 2/3 das emissões globais.

“Se esses países atingirem suas metas, então o Acordo de Paris está ao alcance de novo”, disse Niklas Höhne, professor de mudanças climáticas da Universidade Wageningen, na Holanda. Em 2009, estimava-se que, se todos os compromissos existentes fossem atingidos, o aumento do aquecimento chegaria a 3,5°C. “A grande virada foi a China realmente se movendo rumo ao nível zero, e isso criou um efeito dominó para que outros se juntassem.”

Este efeito não implica somente Estados. Desde o Acordo de Paris, a tecnologia verde deu grandes saltos e no último ano blocos corporativos estabeleceram padrões mais rigorosos. A energia limpa está mais barata e a transição dos combustíveis fósseis está se acelerando. “De algum modo as estrelas estão se alinhando de novo”, disse Rémy Rioux, da Agência de Desenvolvimento francesa, um dos principais negociadores do Acordo de Paris. Com as mudanças na Europa, EUA e China, “estamos provavelmente entrando em uma nova fase, onde o multilateralismo retomará sua tração”.

O Brasil, contudo, segue alheio a esse movimento. O País chegou a apresentar uma revisão de metas a uma semana da cúpula. Mas, segundo a ONG Observatório do Clima, essa revisão é “imoral”, porque oferece um esforço adicional de apenas 6% em relação à meta de 5 anos atrás. Pelos cálculos da organização, a redução de 43% das emissões até 2030 proposta pelo Brasil, em comparação com os índices de 2005, se fosse compartilhada na mesma proporção pelos demais países, levaria a um mundo cerca de 3°C mais quente.

Assim, a irritação da jovem Greta Thunberg talvez seja exagerada em relação ao mundo, mas não em relação ao Brasil. Claramente, os organizadores da cúpula concordam. Tanto que o País foi vergonhosamente excluído da lista dos participantes, por não apresentar metas suficientemente ambiciosas.

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